Extinção ameaça 22% das espécies de plantas - ou mais

outubro 31, 2002 by ibps  
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A situação da flora mundial está pior do que se imaginava. Pelo menos 22% das espécies de plantas no planeta estão ameaçadas de extinção, em vez do índice aceito atualmente, de 13%. Dependendo do critério adotado, o número pode chegar a 62%, segundo uma dupla de pesquisadores americanos.


As estimativas são baseadas no estudo de espécies das latitudes tropicais, onde se concentra a maior biodiversidade do planeta, mas normalmente deixadas de fora pela falta de levantamentos regionais confiáveis. A solução dos pesquisadores foi usar o número de espécies endêmicas como base para calcular a quantidade de espécies potencialmente ameaçadas.


Por existirem apenas em uma região específica, os organismos endêmicos são naturalmente mais vulneráveis à depredação ambiental. Segundo os pesquisadores, entre 46% e 62% da flora mundial existe em um único país. A proporção varia de acordo com o número total de espécies vegetais, calculado entre 422 mil e 310 mil.


Nigel Pitman, da Universidade de Duke, e Peter Jorgensen, do Jardim Botânico do Missouri, apresentam cinco estimativas, baseadas em critérios diferentes. Na melhor das hipóteses, 94.052 espécies (22%) estariam ameaçadas de extinção; na pior, seriam 193.513 espécies (62%).


O estudo está publicado na edição desta quinta-feira da revista Science. Os resultados poderão ser importantes para as discussões da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), que se realizará entre 3 e 15 de novembro no Chile.


Herton Escobar

Pesca e turismo ameaçam a Ilha dos Lobos

outubro 31, 2002 by ibps  
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Divulgação/Sea Shepherd
Importante área de descanso e alimentação de leões e lobos marinhos, além de ponto de passagem para cetáceos (golfinhos, baleias e botos), aves e tartarugas marinhas, a Reserva Ecológica da Ilha dos Lobos, localizada em Torres, no Rio Grande do Sul, vem sofrendo pressões do turismo desordenado, pesca indiscriminada, embarcações e risco de contaminação por petróleo. Para avaliar este impacto e elaborar um plano de manejo que leve à manutenção da biodiversidade local, está sendo desenvolvida uma parceria entre a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Ibama e a entidade ambientalista Sea Shepherd Brasil.


Iniciado em maio deste ano, o projeto visa também conseguir alternativas para manter o modo de vida das comunidades pesqueiras tradicionais da região, um dos principais pólos turísticos do litoral gaúcho. Segundo o biólogo Alexandre Castro, um dos coordenadores do projeto, essa a pesca artesanal já vem enfrentando a concorrência da pesca industrial. Com 17 mil metros quadrados, a Ilha dos Lobos é muito impactada pela pesca e turismo por estar a apenas 2 quilômetros da costa.


Entre as atividades, está sendo realizado um monitoramento mensal da faixa de praia entre Tramandaí e Torres, litoral norte do Estado, para a identificação dos animais que freqüentam a região. Até o momento, foram identificadas um total de 25 espécie de aves, a maioria localizada entre os municípios de Imbé a Capão da Canoa. Foram encontrados, ainda, durante as vistorias, 90 redes de pesca fixas na área de estudo.


Realizado por técnicos do Sea Shepherd e alunos de biologia da Unisinos, que fazem parte da Equipe de Emergência para recuperação de animais marinhos em derrames de petróleo, o trabalho inclui ainda a contagem dos pinípedes (lobos e leões marinhos) presentes na Reserva, entrevistas com os pescadores da região, assim como educação ambiental com a comunidade.


Em cada monitoramento foram contados, em média, 20 indivíduos de leão marinho (Otaria flavescens) e 5 indivíduos de lobo marinhos (Arctocephalus australis) presentes na Reserva. Casto explica que a contagem na ilha é feita por circunavegação, sem desembarque. “O número de animais na Reserva tende a diminuir no verão, mas não sabemos se é um fenômeno natural ou é por conta da grande presença de turistas”.


Além disso, a equipe identificou, nesses primeiros seis meses de projeto, quatro embarcações pesqueiras dentro dos limites da Ilha dos Lobos, o que é ilegal. “Pela legislação, os barcos não podem se aproximar além de 500 metros da Reserva, mas não existem bóias sinalizando. Por isso, a unidade de conservação, para ter sua proteção garantida, precisa ter um plano de manejo”, disse o biólogo.


O monitoramento deverá continuar até o final de 2004 e, além do plano de manejo, deverá resultar no Mapa de Sensibilidade Ambiental da área.


Maura Campanili

O Meio Ambiente e a Fragilidade Institucional - Parte II

outubro 30, 2002 by ibps  
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No boletim anterior apresentamos a primeira parte de uma longa conversa com Shelley Carneiro, que presidiu por sete anos a Câmara Técnica de Controle Ambiental do CONAMA. Num depoimento franco, o ex-presidente relatou a realidade das instituições ambientais brasileiras, com seus desajustes organizacionais, seus problemas de representatividade, entre outras deficiências. Shelley apontou os aspectos positivos e negativos do órgão que estabelece as normas ambientais no Brasil, mostrando a nossa frágil condição institucional frente aos graves problemas que estamos enfrentando e apontando, com otimismo, novos caminhos.


Dando continuidade ao conteúdo abordado na primeira parte, Shelley Carneiro fala agora sobre a importante função do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA no processo democrático e na construção do desenvolvimento sustentável.


O papel do CONAMA no processo da sustentabilidade


Apesar das instituições terem diversos defeitos, como serem lentas e burocráticas, para Shelley, elas tomam agora uma força violenta se pensarmos que estas organizações estão passando por um processo e que elas vão começar a ter que se modificar. Acontece que essa mudança precisa ser sustentável. Para isso: participação, integração e dinamismo devem fazer parte dos ingredientes principais.


- O CONAMA pode ser um grande elo dessa ansiedade da sociedade em relação aos problemas ambientais se tiver alguns pontos importantes.


A interatividade institucional


- Primeiro, ele tem que interagir. Não apenas com o Congresso Nacional, mas com a sociedade como um todo, através de representantes que sejam realmente representativos e que tragam não apenas as suas necessidades pessoais, mas as necessidades de uma classe; da sociedade em que ele vive, e que isso possa ser colocado e enfrentado por todos. Essa interação é fundamental não apenas entre si - CONAMA para CONAMA -, conselho e membros que estão ali representados, mas também do CONAMA para fora, com o Congresso Nacional e todas as instituições sociais. Sem isso, o problema de representatividade do conselho fica muito abalado.


A responsabilidade compartilhada


- As questões ambientais também precisam sair deste viés de que os problemas do meio ambiente são só do CONAMA, eles têm que permear todas as instituições para que tenham força na realidade. Você não pode tomar uma decisão sem que a mesma esteja embasada em um plano multidisciplinar, levando em consideração toda uma cadeia.


O dinamismo necessário


- O mundo hoje é dinâmico e temos que estar abertos, constantemente modificando nossos pontos- de- vista. Não podemos estagnar e achar que seremos da mesma maneira daqui há dez anos. Então esta dinâmica, esta velocidade que a sociedade precisa ter, as nossas instituições precisam ter também. Elas tem que ser mais abertas. Se elas querem conversar com a sociedade elas tem que criar instrumentos mais modernos e adequados à essa realidade, que tornem estas instituições realmente eficazes dentro de um mundo com uma velocidade fantástica de modificações. A legislação precisa ter dinamismo acima de tudo. Uma lei que funciona hoje pode estar totalmente ultrapassada amanhã. Então é preciso uma dinâmica institucional. A gente tem que aprender a fazer isso.


Os primeiros passos de uma conexão interinstitucional


- Eu acho que começam a se criar algumas pontes nesse abismo que distancia a relação entre o CONAMA e o Congresso Nacional, algumas ligações interessantes que antes não existiam. Agora, o próprio ministério está levando seus grandes projetos. Foi assim com o Código Florestal, foi assim com a Política da biodiversidade, com a Lei das Águas, a Lei de Crimes Ambientais; que tiveram uma participação ativa no Congresso Nacional. Apesar de ter começado há pouco tempo, eu acho que isso é uma revolução, pois é fundamental o apoio do lado político. Para se ter uma idéia, raramente você tem uma grande liderança política para a área ambiental dentro do congresso. Nós tivemos Fábio Feldman, que, apesar das muitas críticas sofridas, para mim, foi uma liderança. O Fábio chegou, teve coragem, bateu, fez seminários, lutou e apareceu. O Fernando Gabeira tentou, mais de uma maneira um pouco distante, um pouco mais intelectualizada, e acabou não atingindo tanto como se esperava do Gabeira, nesse aspecto do PV( Partido Verde) do Rio.


Uma visão otimista da integração e representatividade


- A própria participação maior de alguns segmentos já está criando uma estrutura, canais que permeiam mais àquelas instituições que precisam ser representadas. Não apenas a CNI- Confederação Nacional da Indústria, sindicatos patronais, dos trabalhadores, ONG’s. Sem dogmatismo, sem radicalismo, mas trazendo o problema e negociando com seriedade e um objetivo conjunto, isso é fundamental.


A importância do CONAMA no desenvolvimento social


Por maiores que sejam as deficiências oriundas de todo um sistema errado em andamento, o CONAMA poderá vir a ser um importante canal para o desenvolvimento social.


- Errado ou certo, atualmente, com os instrumentos que se tem, o CONAMA é um caminho democrático bastante interessante. Ele tem uma função muito especial dentro desta nossa sociedade que é tão autocrata e na qual as instituições ainda estão sendo trabalhadas de uma maneira bastante direcionada - em cima apenas do econômico e de interesses de pequenos grupos -, porque o CONAMA cria a oportunidade de você ter suas ansiedades e poder ir lá criticar, e isso é muito bom. É aí que a sociedade vai crescer, se colocar, começar a exercer sua cidadania e a se politizar. É com esses instrumentos que se começa a desenvolver a sociedade.


- É essencial não esquecermos que o CONAMA possui deficiências que são fruto de todo um contexto errado no qual ele está inserido e que também precisa aperfeiçoar-se. Ainda assim, o CONAMA é uma instituição muito importante porque cria a oportunidade de você poder criticá-la, porque ela existe e porque está procurando melhorar. A maneira como o Conselho está organizado hoje terá que sofrer ainda muitas modificações para que possa ser eficiente. Para isso é preciso vontade, coragem e decisão, qualidades que muitas vezes faltam dentro dos mecanismos que nós temos. Contudo, se você me perguntar se ele é útil, eu digo que é. O que eu questiono na dificuldade de mobilização do CONAMA é toda essa rede burocrática que foi criada e que funciona ineficiente.


Instrumento da sociedade


- Para você criar um sistema democrático você precisa ouvir a sociedade, desenvolver instrumentos que a mobilizem e a preparem para enfrentar uma realidade ou contribuir de uma certa forma com uma política, uma lei, com algo que a mesma esteja precisando para resolver os seus problemas. E o CONAMA é isso. O CONAMA é um processo em formação muito interessante e que tem tudo para crescer. Agora ele precisa ficar atento para a necessidade de estar sempre buscando a discussão dos problemas ambientais vividos com a sociedade, para que construa realmente a sustentabilidade dentro de um processo muito mais amplo. Ele tem tudo para ser a ponte para que isso ocorra. Porque o CONAMA não é do Ministério do Meio Ambiente, é um conselho da sociedade.


A mudança, a inércia burocrática e o poder da sociedade organizada


- É importante a compreensão de que nós estamos vivendo um processo. De uma certa forma você questiona os paradigmas que estão aí, procurando adaptar o mundo a esse dinamismo que existe e que nós temos que ter para que possamos acompanhar as mudanças, que hoje são rápidas demais. E a sociedade tem que se adaptar a isso. Nós estamos começando a modificação de um processo que precisa ter uma velocidade adequada à realidade, e muita coisa ainda está brecando isto. Há uma estrutura ainda muito burocratizada no governo, o que causa um imobilismo. As reações e as respostas são lentas demais para as necessidades cada vez mais exigentes das mudanças que estão aí. Cada vez mais as modificações requerem maior flexibilidade para que você possa conseguir os resultados que precisa. E falta ainda aos nossos políticos uma visão mais integrada das regiões que eles representam com o resto do país. Ou os problemas são focados demais em interesses muito pequenos, ou eles esbarram com essa inércia do próprio Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, as suas necessidades estão ali. Você tem que comer, você tem que viver… As coisas começam a acontecer e as pessoas não vão mais esperar o governo se decidir. Então começa a haver uma mobilização, sem que o governo tome parte dessa mobilização. E é isso que vai modificar a sociedade brasileira. Essa é uma das grandes mudanças. A sociedade vai começar a colocar essas estruturas pesadas, ultrapassadas, dentro de um ritmo totalmente diferente. Ou a estrutura se adapta, ou a sociedade vai tomar o seu ponto- de- vista.


O problema ambiental é responsabilidade de todos


- O problema ambiental não é apenas do Ministério do Meio Ambiente, é de todos os ministérios e de toda a sociedade. Precisa haver uma mobilização hoje no Brasil, e em todo o mundo, para que ocorra uma real interatividade. Somente assim vamos conseguir sair para algo diferenciado. A própria maneira hoje dos ministérios trabalharem é totalmente fragmentada, e uma fragmentação que tem pesos totalmente diferentes. Hoje você pensa: Economia é a base. Então, o Ministério da Economia fica em primeiro lugar, é o principal, enquanto o Ministério da Educação e Cultura é marginalizado a um mero processo paralelo. Os próprios ministérios não se conhecem. Não há interação. São aquelas casas imóveis, cada uma preocupada com o seu processo. Então a parte institucional precisa criar mecanismos para que todo o processo possa interagir de uma maneira eficiente.


- O nosso sistema, por ele ser pouco representativo, como eu já havia dito anteriormente, e os conselhos são pouco representativos e tem muita gente que torce para que eles sejam assim, eles tem pouca penetração dentro do arcabouço que nós criamos aí, seja o arcabouço jurídico, seja o de responsabilidades. Nós não vamos crescer no mundo hoje se não tivermos vontade política, e para isso é preciso que os nossos representantes sejam bem informados, estejam abertos à informação, participem mais do processo, sejam mais diversificados. Às vezes um pouco mais generalistas do que simplesmente técnicos ou burocratas dentro de um processo, mas, principalmente, mais ecléticos no seu conhecimento. Capazes de interagir no seu setor de representação com os problemas da nação, e não tomando decisões simplesmente em cima de pequenas dificuldades, mas de um problema maior e de uma forma mais integrada. É um processo do mundo a integração.


Shelley Carneiro foi presidente da Câmara Técnica de Controle Ambiental do CONAMA e presidente do CEMA- Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da FIEMG. Atualmente, é titular da SC Empreendimentos.


LEIA TAMBÉM


A Agenda 21 e as perspectivas do desenvolvimento sustentável, onde Shelley Carneiro comenta sobre a Agenda 21, sua aplicação, e as perspectivas para a sustentabilidade após Joannesburgo.


 

As lições da Rio + 10 para o Brasil

outubro 30, 2002 by ibps  
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*Haroldo Mattos de Lemos



As avaliações sobre os resultados da Rio + 10( Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável) divulgadas na mídia, até agora, são muito divergentes. Para as organizações não- governamentais e ambientalistas foi um fracasso, um retrocesso, ou a “Rio – 10″, como chegou a ser classificada. Para altos funcionários das Nações Unidas, diplomatas e Ministros do Meio Ambiente, importantes avanços foram alcançados, embora mais modestos do que se esperava. O nosso julgamento é influenciado, certamente, pelos resultados da Rio 92.


Dez anos antes, a Rio 92 foi convocada para comemorar o vigésimo aniversário da Conferência de Estocolmo e para discutir o conceito de desenvolvimento sustentável. Este, definido com grande habilidade e bom senso pela Comissão Brundtland, no seu relatório “Nosso futuro comum”, de 1987, após quatro anos de trabalho. Por iniciativa de seu Secretário Geral, o canadense Maurice Strong, a Rio 92 produziu também um documento com propostas concretas de como iniciar o processo de transição em direção ao desenvolvimento sustentável, que é a Agenda 21. Por esse motivo, a Rio 92 foi uma conferência fantástica, que mobilizou milhares de reuniões locais, regionais e internacionais durante o processo de preparação, e contou com a participação de 112 Chefes de Estado.


Na realidade, para analisarmos os resultados da Rio + 10, precisamos entender que ela foi convocada pelas Nações Unidas, apenas para avaliar os avanços dos países na implementação da Agenda 21, e não para discutir novos conceitos ou caminhos futuros. A Resolução das Nações Unidas que determinou a revisão decenal dos resultados da Rio 92 não previa a revisão da Agenda 21 e dos Princípios aprovados na Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.


Por esse motivo, a Rio + 10 produziu um Plano de Implementação e uma declaração política, a Declaração de Johannesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável.


É claro que ficamos frustados com os escassos consensos e metas definidas a serem alcançadas em nível mundial. Apesar disso, conseguimos avanços conceituais em algumas áreas, por exemplo, na área de energias renováveis. A proposta brasileira para 10% de energias renováveis até 2010, que contava com o apoio de toda a América Latina e Caribe, não foi aprovada. Mas o Plano de Implementação de Johannesburgo tem vários parágrafos sobre esse assunto, com ênfase maior que a da Agenda 21. Por isso, o Secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, José Goldemberg, afirma que, já na próxima revisão anual do Plano de Implementação, a questão das energias renováveis poderá ser rediscutida.


Entre os resultados positivos alcançados na Rio + 10, podemos destacar:





  1. Saneamento: reduzir à metade, até 2015, o número de pessoas sem acesso a água potável e ao esgotamento sanitário. As Nações Unidas estimam que temos hoje 1,1 bilhão de pessoas sem água encanada e 2,4 bilhões sem esgotamento sanitário. Foram anunciados parcerias e projetos num montante de 1,5 bilhão de dólares;



  2. Biodiversidade: reduzir significativamente o desmatamento e a perda de recursos genéticos até 2010. Um grande avanço para os países em desenvolvimento foi o compromisso firmado para iniciar a negociação sobre a repartição dos benefícios com o uso dos recursos genéticos;



  3. Pesca: restaurar os estoques pesqueiros aos níveis sustentáveis, até 2015, onde for possível. Regiões tradicionais de pesca, como a do bacalhau, no Atlântico Norte, já entraram em colapso, o que provocou a perda de 40 mil empregos no Canadá. Mas a linguagem diplomática “onde for possível” é preocupante( talvez possamos entender como um hábeas corpus preventivo);



  4. Químicos: nova forma de gestão para os produtos químicos, com a harmonização da sua rotulagem e classificação, até 2008, e a fabricação e uso de produtos químicos, que não afetem a saúde humana, até 2020;



  5. Mudanças climáticas: a Rússia e o Canadá comprometeram-se a ratificar o Protocolo de Quioto , o que deverá viabilizar sua entrada em vigor, em poucos meses;



  6. Combate à pobreza: reduzir em dois terços, até 2015, os índices de mortalidade infantil( o que será facilitado se a meta de água potável for atingida), reduzir à metade, até 2015, a proporção de pessoas com renda inferior a 1 dólar por dia, e melhorar significativamente a qualidade de vida de 100 milhões de favelados.


O Plano de Implementação menciona a intenção dos países industrializados em aumentar a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento para os países pobres, mas não cita a meta de 0,7% , que havia sido acordada na Rio 92 e nunca foi atingida. Apenas cinco países- Noruega, Dinamarca, Holanda, Suécia e Luxemburgo dedicam 0,7% ou mais de seu PIB para essa ajuda a fundo perdido aos países em desenvolvimento.


Outra vitória importante dos países em desenvolvimento foi a reafirmação, no Plano de Implementação, dos princípios aprovados na Declaração do Rio de Janeiro, mencionando, inclusive, o Princípio 7, “Das responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, que havia sido questionado pelos Estados Unidos durante as reuniões preparatórias. O Primeiro Ministro da Alemanha, Gerard Schroeder, defendeu o fim dos subsídios agrícolas nos países ricos, que alcançam 1 bilhão de dólares por dia e dificultam o acesso dos produtos dos países em desenvolvimento aos mercados mundiais.


Kofi Anam, Secretário Geral das Nações Unidas, declarou que a Rio + 10 não foi uma reunião isolada, pois faz parte de um processo que inclui a Cúpula do Milênio(2000), a Conferência de Doha sobre Comércio Internacional(2001) e a Conferência de Monterrey sobre Financiamento para o Desenvolvimento(abril de 2002). Segundo ele, “Nós temos que ser práticos e realistas, e caminhar adiante. O que é importante não é o que aconteceu na cúpula, mas o que acontecerá quando voltarmos para casa. A cúpula é apenas o começo”.


O Brasil saiu da Rio + 10 fortalecido pela liderança que exerceu entre os países da América Latina e Caribe( que resultou na Iniciativa Latino Americana e Caribenha, a qual, até a Venezuela, apoiou a meta de energia renovável), pelas ações concretas adotadas no país( Lei dos Crimes Ambientais, aumento das áreas protegidas na Amazônia), e pela destacada participação de sua delegação oficial, como maioria da sociedade civil.


Para os mais pessimistas: muitas vezes na vida, temos que saber dar um passo atrás para que possamos, em seguida, dar dois passos à frente. O importante é não perder a guerra da sustentabilidade.



*Haroldo Mattos Lemos é presidente do Instituto BRASIL PNUMA e professor na Faculdade de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro.



Texto publicado na Revista Brazilian Business, da Câmara Americana de Comércio.


Discutindo o futuro

outubro 30, 2002 by ibps  
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A Petrobras, ao longo deste ano, e ainda em 2003, está promovendo um interessante projeto denominado “Desenvolvimento Sustentável no Século XXI”. Consta de uma série de seminários que abordam o desenvolvimento sustentável sob diversos prismas.


O primeiro aconteceu em São Paulo e abordou a Responsabilidade Social das Empresas. O segundo, em Salvador, tratou de Tecnologia e Sustentabilidade. O terceiro, em Manaus, enfocou a Gestão Ambiental Sustentável.


O próximo seminário será em Porto Alegre, nos dias 21 e 22 de novembro e debaterá a relação entre economia e sustentabilidade, vital para a busca de novos enfoques sobre a organização da sociedade e a discussão de diferentes alternativas para o modelo econômico.


Virão à nossa cidade para participar do evento autoridades nacionais e internacionais, bem como palestrantes da mais notória competência. Dentre o grupo de cientistas presentes, gostaríamos de salientar Peter Bartelmus, do Instituto Wupperthal, Alemanha. Este Instituto estuda há algum tempo o tema da desmaterialização dos produtos. A proposta é fazer mais produtos com menos matéria- prima, buscando poupar recursos naturais ao mesmo tempo em que é diminuído o volume de resíduos gerados. Hazel Henderson, autora do best seller mundial “Além da Globalização”, debaterá a economia global sustentável. Outro palestrante de renome internacional é Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute. Ele abordará o tema Energia para o Século XXI - guia para o início da revolução energética.


Todos os seminários estão voltados para o futuro. Partindo da análise do momento atual, com a identificação de suas dificuldades, a Petrobras proporciona à sociedade brasileira um momento de reflexão e abertura de cenários para o desenho de uma nova organização econômica. Sempre dentro do marco do desenvolvimento sustentável, que busca justiça social, preservação ambiental e viabilidade econômica.


Principalmente as grandes empresas têm a oportunidade de, dentro da perspectiva da responsabilidade social, auxiliar a sociedade a adquirir um conhecimento que lhe permita participar das decisões nacionais com um horizonte ampliado. E podem fazê-lo criando espaços que gerem este conhecimento.


É de se louvar a Petrobras pela iniciativa destes seminários, com que demonstra que exerce sua responsabilidade social de forma educativa e inovadora.


Carlos Adilio Maia do Nascimento


Presidente do IBPS

Editorial

outubro 30, 2002 by ibps  
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Um vento de boa vontade varre o Brasil. Após a definição de que, de fato, é Lula nosso novo presidente, as tensões se afrouxaram, e instalou-se um clima de esperança e de diálogo. A esperança é diretamente proporcional às nossas taxas de desemprego, ao receio da volta da inflação, e outros problemas dos quais todos estamos tão conscientes. O diálogo espera-se que provenha e sinalize uma real maturidade dos atores diretamente envolvidos na transmissão de governo. Um governo é um sistema político pelo qual se rege um Estado; é um regime. Apesar do discurso extremamente moderado através do qual Lula conquistou a presidência, a esperança do povo é de que o sistema político corresponda aos interesses da Nação, seja voltado para seu efetivo desenvolvimento.


Há um vento de boa vontade. Este vento poderá dispersar a nuvem de substâncias tóxicas que paira sobre a Ásia, e que foi tão divulgada antes da Rio mais 10? Passada a Cúpula, onde está essa nuvem, da qual ninguém mais fala? Infelizmente no mesmo lugar, só que agora ninguém mais fala dela. Atualmente, o que não está na mídia não existe. Precisamos bem mais do que um vento de boa vontade.


As notícias deste mês nos falam dos habituais desastres ecológicos: queimadas, vazamentos, comprometimento de solos e águas. Há, porém, a associação de um novo aspecto nestas notícias. Elas começa a ser expressas em valores monetários. As queimadas dão um prejuízo de 102 milhões ao ano. Empresas são multadas (importâncias elevadas) por danos ambientais. O Comércio de Carbono, um mecanismo de desenvolvimento limpo, é um mecanismo de comércio.


Nossa organização sócio- econômica é baseada no mercado. A forma de entender passa pelo significado econômico do fato. Associar e entender que a preservação do meio ambiente tem um valor econômico é um passo para que os processos produtivos passem a ter menor impacto. E um passo importante, pois este argumento é facilmente entendido e assimilado.


O passo seguinte que precisará ser dado é a reformulação da relação entre economia e sustentabilidade. ICMS ecológico, desmaterialização da indústria, novas fórmulas para o cálculo do PIB, são vários os temas cuja discussão, esperamos, nos levem um pouco mais perto de um mundo socialmente justo e ambientalmente sustentável.


Bons ventos e boa leitura!


Gerda Horn Caleffi


Diretora do IBPS

Logística e Meio Ambiente: uma relação lucrativa

outubro 30, 2002 by ibps  
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Jürgen Strauch *



Logística: É o processo de planejamento, implementação e controle de fluxo e armazenagem de matérias-primas, estoque em processo, produto acabado e informações relacionadas, desde o ponto de origem até o ponto de consumo. (ASLOG - Associação Brasileira de Logística)



A logística, à primeira vista, tem pouco ou nada a ver com meio ambiente. Não há produto tangível, tubo de esgoto nem processo de produção. No entanto, a logística, interpretada com cada vez maior abrangência, possui influência elevada na tomada de decisões que podem impactar o meio ambiente.


Entre essas ressaltamos decisões sobre:





  • Suprimento



  • Armazenagem



  • Reciclagem



  • Embalagens



  • Transporte



Nas decisões quanto ao suprimento podem ser consideradas alternativas de produtos ambientalmente corretos, com menor custo de disposição final e possibilidade de reciclagem. Também pode ser exercido o poder de comprador exigindo do fornecedor políticas de produção limpa.


O aumento da segurança na armazenagem de produtos perigosos implica à primeira vista apenas em aumento dos custos. No entanto, as multas, o passivo ambiental, a opinião pública, os custos de recuperar uma estrutura danificada ou uma área contaminada e o aumento do custo das apólices de seguro levaram vários setores industriais a adotarem estratégias preventivas.


A redução do uso, a reciclagem e a reutilização de embalagens transformam lixo em matéria- prima, e reduzem os custos da aquisição de materiais e de disposição dos resíduos.


A opção por embalagens ambientalmente mais corretas representa um ganho concreto, eliminando materiais tóxicos de difícil reciclagem e maior custo de disposição final como os poliestirenos e poliuretanos (proibidos na Europa), como também o uso dos mais amigáveis como polietilenos e polipropilenos, que podem, em muitos casos, ser substituídos por papelão. As novas tecnologias na produção de papelão oferecem produtos reciclados com a mesma qualidade dos plásticos com um impacto ambiental infinitamente menor. Há empresas, como a Eltete do Brasil (www.eltete.com), que oferecem produtos de celulose que aumentam a segurança na armazenagem de produtos e no transporte de cargas e por conseqüência diminuem resíduos. As alternativas ambientais seguem a regra de que nem sempre o mais barato é o mais econômico.


As medidas de redução da emissão de CO2, como o uso de empilhadeiras à bateria, desligamento de caminhões em espera, uso cíclico de containers, opção por veículos mais econômicos ou movidos a combustíveis alternativos, são medidas que simultaneamente trazem economia à empresa.


Outro fator importante para o meio ambiente e o bolso é a seleção do modal( sistema de transporte escolhido pela empresa). A opção ferroviária de transporte, por exemplo, reduz significativamente a emissão de CO2 em relação à rodoviária.


Os sistemas de entrega direta ao cliente “queimam” etapas, agilizam o processo de distribuição, reduzem custos de estoque, melhoram o atendimento ao cliente, reduzem a movimentação do material, e por conseqüência a emissão de CO2. O sistema de entrega direta, que é um sistema com a demanda puxada pelo cliente, necessita de uma excelente estrutura de informação, praticamente impossível sem um avançado sistema informatizado.


As grandes empresas transnacionais e operadoras logísticas americanas e européias já possuem sofisticados programas de proteção ambiental e redução de desperdício. Neste ponto também se verifica a relação entre poluição e desperdício, demonstrada em todos os setores da indústria. Estas empresas descobriram na Logística um grande potencial de redução do custo global, ao mesmo tempo em que contribui para a redução do impacto ambiental. A avaliação do retorno das estratégias ambientais já está sendo inserida na contabilização dos resultados e relatórios para acionistas de grandes corporações, até mesmo o ganho em ativos intangíveis como marca e imagem institucional. Há ainda um grande e crescente potencial de aproveitamento dos resultados em campanhas de marketing ambiental.


O marketing ambiental é uma opção interessante para melhorar o relacionamento com a comunidade, valorizar os ativos intangíveis, e atrair um público consumidor cada vez mais consciente. O consumidor verde é realidade nos EUA e Europa, e está surgindo também no Brasil. A sociedade está questionando as atitudes das empresas, não só o produto final, e recompensando as ambientalmente mais corretas pela decisão de compra.



* Jürgen H. Strauch é sócio-gerente da Pythagoras Logistics, operadora logística integrada, que atualmente está desenvolvendo um projeto de substituição de materiais de embalagem descartáveis (plástico bolha, fitas adesivas, ráfias) por gaiolas metálicas reaproveitáveis na Ensinger do Brasil, multinacional produtora de plásticos de engenharia.

Inovação acontece no chão de fábrica

outubro 30, 2002 by ibps  
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O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), deverá investir mais em inovação, acredita Roberto Nicolsky, diretor geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação (Protec). “O presidente foi um operário, saiu da indústria e sabe que a inovação ocorre no chão de fábrica. Ele mesmo deve ter dado sugestões de inovação quando era operário”, diz.


Para Nicolsky, o novo governo vai perceber o fato de que as empresas precisam receber investimentos para inovar seus produtos, e não vai centralizar os recursos apenas nas universidades e centros de pesquisa. Estas trabalham prioritariamente na pesquisa científica com o objetivo de formar recursos humanos e promover o avanço do conhecimento.


“Lula vai superar essa limitação, porque ele quer exportar para gerar mais emprego e mais renda”, afirma. “E só pela via da inovação vamos tornar nossos produtos competitivos”, completa. Nicolsky destaca ainda que os investimentos na inovação geram empregos mais qualificados para o País. “Lula não pode errar. Há 35 anos o Brasil tenta fazer tecnologia e não consegue”, comenta.


Janaína Simões

A Agenda 21 e as perspectivas para o desenvolvimento sustentável

outubro 29, 2002 by ibps  
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Ainda durante a mesma entrevista que resultou nos textos “O Meio Ambiente e a Fragilidade Institucional - Parte I e II”, o ex-presidente da Câmara Técnica de Controle Ambiental do CONAMA, Shelley Carneiro, falou um pouco sobre a importância da Agenda 21 e sua aplicação, a dificuldade das negociações e as perspectivas para o desenvolvimento sustentável após Joannesburgo. E é sobre isso que você vai ler agora.


Agenda 21, realidade ou utopia?


Na Conferência da Organização das Nações Unidas de 1992 - a Eco 92, realizada no RJ, onde participaram quase a totalidade dos países vinculados à ONU(cerca de 170 países), foi acordado, pela maioria das nações presentes, a implementação do desenvolvimento sustentável através do cumprimento de uma agenda denominada Agenda 21. Tomando como base esse documento, os países deveriam começar a elaborar, a partir daquele momento, a sua própria Agenda 21, adequada às necessidades e aos potenciais específicos de cada região.


Em julho deste ano, o agora ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou a Agenda 21 Brasileira. Segundo noticiaram os jornais na época, a Agenda apresentada no final do governo FHC deverá servir como base para a elaboração do plano plurianual de governo para o período de 2004 a 2007.


Entretanto, a prática das intenções descritas na Agenda 21 ainda é uma incógnita. E as mesmas ações que no papel parecem construir a sustentabilidade, correm o risco de serem inviabilizadas quando em choque com a concreta realidade.


- A Agenda 21 é um grande instrumento, mas eu acho ele muito genérico. Você precisa criar ferramentas para que se torne realidade, para que ele seja realmente útil à sociedade, o que por enquanto não acontece. A Agenda 21 ainda é um mundo de boas intenções, sem nada configurado em termos práticos. É necessário primeiro vontade política para conseguir aplicá-la, o que muitas vezes não se tem. É fundamental também o apoio da sociedade.


Sem contestar a relevância da existência de uma legislação nesse sentido, Shelley ressalta que é preciso começar a pensar seriamente no cumprimento desta Agenda, principalmente no que diz respeito à viabilidade de determinadas ações quanto colocadas em prática.


- Eu tenho visto inúmeras leis muito bonitas, muito interessantes. Porém, distantes de uma realidade concreta. De que adianta um país que muitas vezes possui leis no papel apenas para mostrar que tem uma lei ambiental, leis inaplicáveis na realidade daquela nação, seja por falta de recursos, de consciência, de punição real?


Um exemplo


- A Política da Biodiversidade que foi apresentada pelo Brasil em Joannesburgo, ela é apenas uma proposta, não temos nada concretizado na realidade. Se nós tivéssemos uma Política Nacional da Biodiversidade que realmente, todos nós, achássemos prioritária, como foi o problema do apagão, por exemplo, as medidas seriam aplicadas rapidamente. É preciso parar de esperar a coisa estourar para que se tomem medidas práticas. E é por isso que eu digo que a grande saída é a vontade política.


A decepção de Joannesburgo e a problemática dos grandes encontros


Muito alarde em torno de grandes eventos parecem acabar gerando apenas uma enorme frustração. Pois, na volta para casa, são poucos os resultados trazidos na bagagem.


- Quando se fala que Joannesburgo foi um fracasso, realmente, dentro dessa grande expectativa da sociedade foi mesmo um fracasso. Atualmente, todo o grande evento internacional passa pela mesma dificuldade. Porque é muito difícil você mexer com o mundo todo, cada um com seus problemas, e problemas complexos. É ilusão você chegar lá e achar que vai ter soluções para eles, você não vai ter mesmo. Culturalmente, o mundo ainda tem seus problemas muito distintos. Aqui no Brasil você já possui dificuldades tremendas, às vezes de município para município as coisas já se diferenciam tanto.


Outra questão importante, segundo Shelley, é que com o tempo as negociações vão se tornando cada vez mais complexas, dificultando ainda mais a busca de soluções. Os problemas de hoje são mais complexos que há dez anos atrás, e a tendência é que daqui há dez anos sejam mais complicados ainda.


- No entanto, todas estas discussões têm uma influência muito importante como elemento de divulgação, pois ajudam a aumentar os instrumentos de controle da sociedade, a percepção e a conscientização das pessoas com relação aos problemas ambientais.


A equivocada visão parcial da sustentabilidade


- Quando se fala em manejo sustentável , é preciso levar em consideração que às vezes ele é um pouco mais complicado do que aquilo que se pensava. Ele é importante, é. Mas é preciso que você note que está num processo e que ele é diferente para cada caso. Muitas vezes algumas tomadas de decisão não levam em conta uma mudança de paradigma que precisa ser feita gradativamente, porque você vai estar mexendo com valores, culturas diferentes. Por exemplo, todo mundo sabe que alguma medida tem que ser tomada para proteger a Mata Atlântica. No entanto, em outras épocas você incentivou o corte da Mata Atlântica, o próprio Governo fez isto. Então se criou uma rede de cidades e de pessoas que vivem economicamente em cima do corte da mata. De repente você diz: Acabou, não pode mais. Sem desenvolver alternativas e nem criar uma mudança gradativa dando opções àquelas pessoas que vivem naquela região. É preciso pensar e agir de maneira integrada. Vamos criar um sistema sustentável, mas antes, vamos educar as pessoas a trabalharem sustentavelmente.


O equilíbrio não é estático


Quando se fala em equilíbrio, muitas vezes pensamos em algo estático. E na realidade o equilíbrio não ocorre desta forma.


- O mundo hoje tem que pensar basicamente no equilíbrio dinâmico. Você vai sempre procurar o equilíbrio, mas este vai estar sendo modificado a toda hora. A sociedade precisa ter essa mentalidade hoje, principalmente quando se trata da questão ambiental.


Muitos problemas, pouca visão


- Muitas vezes você toma decisões em cima de alguma coisa, e você vai ser pego lá na frente, às vezes até a curto prazo, porque você não mexeu no todo, você mexeu só na parte. Isto está acontecendo muito, as decisões ainda são muito centralizadas.


A visão curta e fragmentada dos políticos com relação aos grandes problemas ambientais brasileiros é outro ponto importante a destacar.


- O problema da Amazônia, dos recursos hídricos, problemas da natureza, da biodiversidade, o efeito estufa; quer dizer, nós temos problemas enormes a resolver no Brasil que estão diretamente ligados com a qualidade de vida e com a riqueza, o progresso e o desenvolvimento econômico e social do país.


Você pode conseguir resultados bem imediatos na parte da economia, mas você pode três, quatro anos depois, cair do cavalo porque a coisa não se sustenta, porque você não levou em consideração diversos fatores que devem estar vinculados à essa idéia.


Um exemplo


- Você usa um recurso escasso, que vai acabar um dia, e faz um grande projeto para este recurso. Aí você degrada o recurso. Dali adiante você vai ter problemas de escassez, aumento de preço do recurso, uma série de fatores que muitas vezes vão inviabilizar tudo o que você fez. A tecnologia tem um avanço muito rápido atualmente, e precisamos ficar atentos a isso, porque, às vezes, um planejamento de hoje pode não se encaixar na realidade de amanhã. Os cabos de fibra ótica, por exemplo, 70% da fibra ótica do mundo, nos EUA, não receberam sinal ainda. Furaram buracos para todo lado, estenderam fibra ótica, a tecnologia já está ultrapassada e muita coisa talvez nunca vá receber nada. Exatamente porque a velocidade é tão rápida e a tecnologia já é vencida. Então se faz um trabalho imenso e não se utiliza aquele trabalho. Isso é um exemplo, existem milhões de exemplos.


A percepção da necessária visão do todo


- Você não pode tomar uma decisão sem que a mesma esteja embasada em um plano multidisciplinar, levando em consideração toda uma cadeia. Então é preciso ter essa percepção, que só poderá ser obtida através da integração de todos os elementos que estão naquela decisão que foi tomada. Hoje, com a globalização, você tem que extrapolar constantemente. Você está sofrendo a influência do mercado e a parte ambiental está diretamente ligada com as barreiras alfandegárias, pois o processo de modificação do mercado internacional implica exigências diferentes a cada dia, e é preciso estar atento porque, muitas vezes, o seu produto não entra lá, pois você não está consciente do problema ambiental e não adota as devidas medidas de proteção e prevenção.


O conceito de sustentabilidade


A própria compreensão do que é a sustentabilidade ainda é uma questão a ser pensada dentro de uma realidade concreta.


- O dia em que começarmos a enxergar a sustentabilidade como manutenção do todo, de todas as vidas do planeta, o desenvolvimento sustentável está nisso, se dará. O problema é que nos perdemos nesta idéia antropocêntrica de que só nós existimos.


- O Capra ( Fritjof Capra - Físico, Teórico e Escritor ) me disse uma coisa uma vez que acho uma grande verdade. Ele disse que o problema do mundo não é econômico, não é social. O problema do mundo é de percepção, porque a nossa percepção é em cima do que a gente conhece e a gente não conhece nada. A cada dia nos damos mais conta disso.


Shelley Carneiro foi presidente da Câmara Técnica de Controle Ambiental do CONAMA e presidente do CEMA- Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da FIEMG. Atualmente, é titular da SC empreendimentos.


 

Como gastar menos com água

outubro 29, 2002 by ibps  
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Em tempos de contenção de gastos, a instalação de medidores de água individuais nos apartamentos tem sido a saída encontrada pelos edifícios, sobretudo do tipo caixão, na Região Metropolitana do Recife (RMR), para evitar o desperdício. Por mês, a quantidade de pedidos chega a 600 na Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), responsável pela instalação do medidor ou hidrômetro, como também é conhecido.


“Em geral, a individualização da conta de água representa uma economia de 30% no consumo mensal do apartamento”, estima Jairo Santos, gerente de Micromedição da Compesa. Segundo lembra, há quatro anos, quando a instalação de hidrômetros ainda não era comum, eram inúmeras as reclamações a respeito das contas de água. Muitos se recusavam a pagá-las devido aos altos valores. “Hoje, isso mudou muito. Com a individualização do sistema, cada apartamento paga pelo que consumo, gerando um controle maior do uso da água no prédio como um todo”, esclarece Jairo Santos.


No Edifício Santo Antonio, na Encruzilhada, Recife, depois que os medidores individuais foram implantados este ano, o gasto mensal dos condôminos com água caiu de R$ 44,33 para cerca de R$ 6,47, considerada a tarifa mínima residencial pela Compesa. “Por incrível que pareça, na época do rateio, os R$ 44,33 eram insuficientes para arcar com as despesas porque as contas eram altíssimas e inadimplência grande”, conta a síndica Vaneide Novaes.


Antes da instalação dos hidrômetros, lembra ela, as contas de água do prédio custavam de R$ 3,5 mil a R$ 4,5 mil por mês. “Com a individualização do sistema, eliminamos a inadimplência e ficamos mais folgados financeiramente para investir em obras de reforma e manutenção do prédio”, comemora Vaneide. “No meu apartamento, os gastos com água diminuíram em 40% por mês”, calcula o atendente Alécio Rocha Vieira, um dos moradores do Edifício Santo Antonio.


Atualmente, 38 mil apartamentos na RMR (o que corresponde a 1.800 prédios) já têm a conta de água individualizada. “A instalação de hidrômetros é ideal para as pessoas de baixa renda, que não têm condições de arcar com uma conta tão alta”, assegura o gerente Jairo Santos. Nos últimos anos, ele estima que a inadimplência nos edifícios tenha reduzido em torno de 50%.


“Nos prédios novos, a existência de medidores individuais já se tornou fator preponderante para o consumidor na hora da compra de um apartamento”, revela Antenor Lino, presidente do Sindicato da Habitação de Pernambuco (Secovi). No Recife, desde abril deste ano, a Lei Municipal nº 56.759/02 obriga os edifícios novos da capital a instalarem hidrômetros em todos os apartamentos.


“Nos prédios que não têm a conta individualizada, a água chega a representar 60% nos gastos do condomínio, provocando um impacto grande nas contas, além de gerar conflitos e desavenças entre os moradores”, atesta Antenor Lino. A preocupação com o consumo da água levou o Secovi a destinar um capítulo inteiro sobre o assunto no Manual do Condomínio, distribuído gratuitamente pela entidade.


“Nos condomínios, a inadimplência chega a 12%, obrigando os moradores a fazerem uma cota extra para evitar o corte de água”, afirma Antenor Lino.


O custo médio para implantação de um medidor é de aproximadamente R$ 400 por apartamento. Mas isso pode variar. No Edifício Santo Antônio, cada condômino desembolsou R$ 285. “O gasto depende do número de residências e da infra-estrutura do prédio”, informa Jairo Santos. De acordo com o gerente da companhia, quem deseja instalar medidores de água tem procurar, primeiramente, uma firma especializada em adaptações hidráulicas para elaborar um projeto técnico.


Com o projeto pronto, os moradores devem se encaminhar à Compesa para assinar um termo de compromisso. “Todos os apartamentos têm de concordar com a instalação dos medidores para que os equipamentos sejam colocados”, destaca Jairo Santos. Entretanto, é preciso estar atento para a manutenção dos hidrômetros. “Normalmente, em nome da economia, o condomínio costuma contratar amadores para realizar a manutenção do equipamento, o que pode causar problemas”, alerta Antenor Lino.


Marcelo Robalinho

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