O desenvolvimento sustentável no Brasil : situação, desafios e possibilidades
novembro 30, 2002 by ibps
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Em uma entrevista concedida em novembro último para este boletim, o Secretário do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul, Cláudio Langone, encerrando seus 4 anos de gestão estadual, expõe algumas de suas conclusões sobre a situação da problemática ambiental brasileira, os avanços, os desafios, e as perspectivas da sustentabilidade no novo governo.
A importância da variável ambiental incorporada na estratégia de desenvolvimento
Mesmo o Brasil tendo evoluído no que diz respeito a políticas ambientais, segundo Langone, a incorporação da variável ambiental nas políticas setoriais ainda deixa a desejar, representando, para o secretário, o primeiro grande desafio para o avanço do desenvolvimento sustentável.
- Agora é hora de avançar no sentido do desenvolvimento com sustentabilidade, porque eu acho que o movimento da Rio 92 trouxe um avanço da agenda ambiental, sobretudo no sentido de diminuição de impactos. O problema é que isso não significou a incorporação da variável ambiental no coração da estratégia de desenvolvimento mundial. E aí eu acho que o primeiro grande desafio em termos de sustentabilidade mundial está relacionado a distribuição da riqueza. Não é razoável pensar que a gente tem condições de aumentar de maneira significativa o volume de riquezas produzidas no mundo. O volume de riquezas produzidas no mundo hoje tem condições de sustentar a humanidade, de dar condições de sobrevivência e padrões razoáveis para o ser humano. O que nós vemos é uma desigualdade que aumentou de 1992 para cá; na relação entre os países ricos e pobres e nas relações internas dos países.
- A incorporação da variável ambiental na estratégia de desenvolvimento do país, sobretudo na área de desenvolvimento econômico e na área de infraestrutura, é o grande passo que o país tem que dar. Para fazer isso, você precisa fortalecer o setor ambiental dentro do governo, porque o setor ambiental é quem alimenta essa estratégia. Acontece que o Brasil avançou bastante em termos de políticas ambientais, mas o nível de incorporação da variável ambiental nas políticas setoriais é muito baixo. O setor ambiental, tradicionalmente no Brasil, não se preparou para ter uma relação mais propositiva neste sentido. Ele sabe controlar poluição de indústria, mas não tem capacidade para, no desenho de uma estratégia de desenvolvimento industrial, sentar à mesa com os setores desenvolvimentistas e dizer: Olha, vocês precisam incorporar tais e tais elementos no desenho da estratégia da política industrial brasileira, ou da política energética. Eu acho que esse é o grande salto que nós temos que dar, mas não tenho ilusões de que isso seja um processo que caia do céu, ou que se dê espontaneamente. Eu acho que precisa ter uma diretriz política do Governo, e precisa haver, dentro do Governo, uma estrutura que seja alimentadora desse processo, que, para mim, é o setor ambiental.
A redistribuição da riqueza e os diferentes efeitos da desigualdade
- Não há como você combater a pobreza sem combater a riqueza. Isso significa que é preciso criar mecanismos internacionais de redistribuição da riqueza. Não tem outro jeito. Porque pensar em ampliar o volume de produção de riquezas do mundo significa ampliar ainda mais o comprometimento da capacidade de suporte do planeta. Isso está intimamente ligado à questão da mudança dos padrões. A idéia é buscar padrões de produção e consumo mais racionais, só que isso não é uma discussão abstrata. O fracasso de Joannesburgo não é um fracasso teórico e a falta de avanço na implementação de alguns acordos como o acordo de mudanças climáticas - e seu mecanismo direto de implementação que é o Protocolo de Quioto -, tem reflexos muito fortes na degradação ambiental e nos distintos grupos sociais, que sofrem de maneira diferenciada os efeitos dessa degradação. Não há dúvida de que os grupos minoritários são mais atingidos pela destruição ambiental. Um bom exemplo está no acesso a água. E aí eu penso que um tema que apareceu muito forte em Joannesburgo que foi o da justiça ambiental - a necessidade de democratização do acesso de todas as pessoas aos bens ambientais -, é um elemento muito importante.
- Você hoje tem relações profundamente desiguais nos diferentes grupos sociais em relação aos bens ambientais, ao uso fruto dos bens ambientais. E a questão da água é o tema que chama mais atenção, porque, se você considerar que os bens ambientais são bens públicos, que todos têm direitos iguais a eles você vai ver que, do ponto-de-vista real, nós precisamos avançar muito.
Os mecanismos de legitimação e a relevância do Estado
- As leis são um reflexo da sociedade, porque são representantes da sociedade que as fazem. Eu acho que é fundamental que se tenha mecanismos de legitimação das leis. O processo de discussão de todos os segmentos da sociedade, prévio a elaboração de leis, é essencial para sua implementação depois. Acontece que o Brasil teve um problema na questão ambiental que é o seguinte: nós tivemos, no último período, o aprofundamento de leis fortes que exigem um Estado forte, mas tivemos a execução de políticas de diminuição do tamanho do Estado. Então, lei de Estado máximo para política de Estado mínimo cria uma situação de frustração e as leis ficam leis de gaveta.
- É preciso pensar numa articulação média, que possa dar mais legitimidade para as normativas legais a partir de grandes discussões e grandes consensos, concebendo a idéia de que as leis são mutáveis porque elas são um reflexo de cada sociedade em cada contexto histórico. O que é aceitável hoje na área de meio ambiente pode não ser aceitável daqui há dez anos. Qual é a tolerância que nós temos com relação ao preço a pagar pelo desenvolvimento? A tolerância tem se mostrado cada vez menor na política brasileira, e eu penso que isso é muito bom. Mas eu também acho que houve uma recusa sistemática do último governo em assumir a função de coordenador de um sistema nacional de meio ambiente, onde Estados e municípios têm um protagonismo muito importante. Você pensar hoje em políticas ambientais no Brasil sem os Estados, significa que 70% da execução das políticas está fora do escopo. Porque os Estados atualmente respondem por 70% da execução das políticas. E eu penso que o Ministério do Meio Ambiente e o Governo Federal tem que se preocupar com a execução das políticas da sua competência, isso é muito importante, mas mais importante do que isso é que ele tem que chamar para si - e ele se recusou sistematicamente a isso no último período -, a coordenação do sistema nacional, pois uma grande parte das políticas que podem ser desenvolvidas em nível nacional requerem uma liderança no Governo Federal, do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, enfim. Nós temos no momento uma fragmentação na execução das políticas que não é aceitável, seja pelo choque entre o Governo Federal e os Estados, que ainda nós temos áreas de conflitos; ou seja mesmo na relação Estados / municípios, onde nós temos muitas disparidades. É pretendido que no novo Governo se assuma um protagonismo de liderança em torno da organização e do resgate efetivo dessa idéia de um sistema.
Um exemplo
- As resoluções do CONAMA que envolvem o setor industrial, que são as resoluções pós- consumo. Nós tivemos quatro ou cinco resoluções pós- consumo de 1999 para cá; pneus, pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes, embalagens de agrotóxicos usadas. Não tem como você implementar uma resolução dessas sem ativar os mecanismos do SISNAMA – Sistema Nacional do Meio Ambiente. Por exemplo, pilhas e baterias: você tem uma ou duas fábricas de pilhas e baterias no país que estão localizadas num Estado que exporta para os demais. A legislação pós- consumo responsabiliza o fabricante e os distribuidores. No entanto, o Estado só consegue chegar até o distribuidor. Para ele responsabilizar o fabricante ele tem que ativar o órgão federal que é o Ibama, que pode ir lá no outro Estado e obrigar o fabricante que faça o recolhimento e a reciclagem da pilha e bateria. Então nós temos uma situação de não implementação da maior parte das resoluções do CONAMA aprovadas de 1999 para cá porque o Governo Federal não assume o papel de articulação disso. Não basta aprovar uma resolução do CONAMA, você tem que depois da aprovação discutir os mecanismos de implementação. Não é uma relação unilateral, porque no processo de negociação que levou uma resolução dessa os setores empresariais estiveram envolvidos, então na implementação eles tem que estarem envolvidos. A não - implementação de uma resolução dessa é um desgaste para todo mundo, inclusive para os empreendedores, porque eles participaram do processo negocial. Então eu acho que isso gera uma grande frustração como gerou na questão da destinação das pilhas e baterias, onde se criou para a sociedade uma expectativa de que o Brasil a partir daí iria ter uma destinação adequada, que os fabricantes iriam recolher as pilhas e baterias, e hoje as pessoas não sabem o que fazer com esse material.
Mais responsabilidade aos municípios
- Na minha opinião, o grande passo na estruturação do sistema de meio ambiente no Brasil é em direção aos municípios. É imperativo que os municípios assumam mais responsabilidade nesta área, sobretudo sobre os pequenos e médios empreendimentos, porque se você somar a capacidade institucional de União, Estados e Municípios na área ambiental no Brasil hoje, ela ainda é insuficiente para atender a demanda. Então não tem nenhum sentido para que haja sombreamento, concorrência de competências num sistema desses. Nós ainda temos no Brasil o Ibama fiscalizando poda de arborização urbana em alguns lugares, o que eu não consideraria aceitável que o Estado fizesse, quanto mais o Governo Federal fazer. Eu acredito que essa definição clara de competências é um elemento fundamental para a gente avançar. E, objetivamente, se não tivermos capacidade de avançar, isso irá frustrar a sociedade. Porque a sociedade cobra que o governo implemente as políticas, ela não quer saber se é o governo da União, do Estado ou do município, ela quer resolver o problema.
A valorização excessiva de um único mecanismo e a necessidade de focalizar o todo
- Está na hora de mudarmos um pouco a matriz, a política ambiental brasileira, porque o setor ambiental no Brasil se desenvolveu com um foco urbano- industrial, e muito centrado no licenciamento ambiental de empreendimento a empreendimento, de maneira isolada. Eu acho que deveríamos dar um salto no sentido de equilibrar mais as funções de fiscalização e de regulação pontual, através do licenciamento com maior capacidade de gestão e planejamento estratégico, olhando mais para um escala regional e trabalhando uma agenda mais propositiva, porque o setor ambiental público no Brasil ainda trabalha sobre uma agenda excessivamente reativa, o que significa que ela é respostista. Você trabalha só em uma lógica de usar os instrumentos, principalmente o licenciamento. E como a questão ambiental não está incorporada nos grandes projetos de desenvolvimento econômico e infraestrutura, o setor ambiental acaba sendo um ponto de trava que garante que o projeto incorpore a questão ambiental na fase do licenciamento, só que isso gera muito conflito. O licenciamento ambiental não pode ser absolutizado como único instrumento de controle público.
Um exemplo
- A questão das hidrelétricas. Porquê continuamos avaliando isoladamente cada hidrelétrica numa mesma bacia hidrográfica, se nós temos bacias hidrográficas que têm inventários que apontam que você pode ter 50, 60 hidrelétricas. E aí, se você não olhar para o global, a tomada de decisão pontual pode ser péssima. Ela pode estabelecer uma dinâmica na qual quem chega primeiro vai instalar e quem chega depois não vai instalar, porque objetivamente não há possibilidade. Os elementos que têm que ser olhados não são só os elementos de volume de água para gerar turbina. Você tem que olhar biodiversidade, cobertura florestal, lazer, abastecimento, turismo, etc.. É preciso ir além dessa questão de uma super estimação do licenciamento ambiental, tentar integrar mais os instrumentos de gestão - sobretudo aqueles que são os instrumentos tradicionais de políticas ambientais e de recursos hídricos. A integração entre o sistema de gestão de águas e o sistema ambiental no Brasil é ainda muito incipiente, e é fundamental.
Os Estados e o Desenvolvimento Sustentável
- O Brasil é um dos países federativos com maior autonomia dos entes federativos do mundo, na escala nacional e subnacional , que é a escala dos governos estaduais. A dimensão local e a dimensão subnacional, ela não está representada formalmente nas negociações internacionais, mas cada vez mais ela tem muita responsabilidade na implementação de políticas. Então, por exemplo, em Joannesburgo nós fizemos um movimento para a criação de uma rede mundial de governos regionais em torno do desenvolvimento sustentável, para reivindicar um espaço nas Nações Unidas específico para esse nível de governo, que é subnacional, e que não é dos governos nacionais. Eu penso que, na escala local, o grande desafio para a sustentabilidade é a relação entre política ambiental e planejamento urbano, uso do solo, planejamento territorial. Na escala estadual e mais ainda na escala nacional o grande desafio é a interface com o desenvolvimento econômico e a infraestrutura.
O exemplo do Rio Grande do Sul
- Eu acho que no RS a experiência que tivemos no atual governo mostrou que é possível avançar progressivamente no sentido de uma agenda mais propositiva que irradie o tema ambiental por todas as pastas de governo. Nos tivemos várias interfaces muito importantes em áreas que tradicionalmente são áreas de conflito, como a área de energia, por exemplo, onde a gente fez o Atlas Eólico, a gente fez as centrais de energia da biomassa, na agricultura - a Agroecologia -, enfim, várias interfaces que não são de execução direta do setor ambiental, mas que tem muita incidência nas macropolíticas. Isso faz parte desse conceito que eu te falei, que a gente colocou como desafio que o setor ambiental tivesse um outro tipo de postura mais propositiva, eu não tenho a menor dúvida de dizer que, senão fosse a criação da SEMA – Secretaria Estadual de Meio Ambiente e nós termos assumido esse papel protagônico dentro do governo, nós teríamos avançado muito menos nessas áreas. Então nós tivemos uma diminuição grande dos conflitos internos, entre meio ambiente e desenvolvimento econômico no RS e, por incrível que possa parecer, o nível de conflito no setor ambiental aqui no Estado com a sociedade também diminuiu muito, principalmente com os segmentos empresariais. Se você for analisar, trata-se de um governo mais rigoroso e com menos conflito, porque é um governo de mais diálogo.
O avanço da sociedade civil com relação ao problema ambiental
- O que para mim é positivo, é que no último período nós tivemos um crescimento significativo da consciência média da população em relação as questões ambientais; e não apenas isso, nós tivemos uma diversificação dos atores. Um tema que estava restrito às ONGs e que hoje mobiliza todos os segmentos da sociedade no Brasil. E essa mobilização tem levado as pessoas a quererem desenvolver ações práticas para melhorar o meio ambiente e isso é muito bom. O Governo deve fazer parcerias com a sociedade e dar os elementos para que isso ocorra.
A alienação do Governo Federal com relação aos problemas regionais e o novo Governo Lula
- Eu acho que o Governo do Lula vai ter, em todas as áreas, mas na ambiental principalmente, uma grande diferença nisso porque nós temos uma experiência muito grande na gestão municipal e na gestão nos Estados, e isso nos dá uma outra dimensão, tendo passado por esse tipo de gestão. Porque, de fato, a tecnocracia de Brasília tem uma visão de mundo que muitas vezes não bate com a realidade. Várias instituições independentes fizeram uma avaliação dos programas ambientais dos candidatos à presidência. De longe o programa que o Presidente Lula apresentou é o mais completo. Ele reflete a experiência que temos nesta área, uma construção já de muito tempo, que é um acúmulo na gestão pública e é um acúmulo também na sociedade civil, em que as principais lideranças ambientalistas no Brasil estão articuladas dentro do PT. E eu acho que é esse acúmulo que nos fez chegar a um programa que é bastante razoável. Não é um programa acabado no detalhe porque optamos por não ir tanto no detalhe, mas ele não deixa nenhuma grande questão de fora em termos ambientais.
Cláudio Langone é Secretário Estadual do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul e Presidente da Abema (Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente).
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O Especial “A evolução brasileira apesar dos resultados de Joannesburgo“, onde o Secretário do Meio Ambiente do Estado do RS analisa as causas do fracasso de Joannesburgo e a maior consciência da sociedade brasileira com relação ao meio ambiente.
A evolução brasileira apesar dos resultados de Joannesburgo
novembro 30, 2002 by ibps
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Dando continuação a entrevista em que Cláudio Langone, no final de sua gestão como Secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul, nos concedeu análises e considerações que resultaram no especial “O desenvolvimento sustentável no Brasil : situação, desafios e possibilidades”, você vai ler agora a opinião do Secretário de Meio Ambiente sobre as causas do fracasso de Joannesburgo, os avanços da sociedade brasileira com relação ao meio ambiente, e as possibilidades de implementação das propostas levadas à Rio + 10.
- O Brasil melhorou muito nos últimos dez anos em termos de política ambiental, em termos de institucionalização das políticas ambientais eu penso que nós avançamos bastante. Em termos internacionais, nós tivemos alguns avanços e alguns retrocessos. Joannesburgo foi um fracasso por diversos fatores.
O enfraquecimento das Nações Unidas e os consecutivos fracassos dos super eventos internacionais
Para Langone, os poucos resultados trazidos da Conferência de Joannesburgo pesaram não apenas na esfera do modelo das grandes conferências, mas, diferente do que ocorreu no evento de 1992, Joannesburgo trouxe também uma derrota política preocupante.
- O que me preocupa muito é que nós saímos de Joannesburgo com um processo de enfraquecimento político do Sistema das Nações Unidas. O fracasso de Joannesburgo foi um fracasso da falta de metas e de acordos concretos, mas foi também um fracasso da autoridade das Nações Unidas como instrumento de governança global, no caso do modelo deste tipo de conferência.
- Em 1992 houveram vários empasses, mas tivemos acordos concretos e as Nações Unidas saíram da Rio 92 com muita autoridade política. Em Joannesburgo os acordos foram totalmente genéricos e o Sistema das Nações Unidas saiu desmoralizado, sem nenhuma autoridade política para cobrar uma implementação dos acordos, mas eu também acho que Joannesburgo teve um fracasso do modelo de megaconferências. Foram três conferências da ONU – Organização das Nações Unidas no último ano que fracassaram. A Cúpula contra a Fome, em Veneza, a Cúpula de Durban e a Cúpula de Joannesburgo na África do Sul. Então, esse modelo de conferência certamente vai precisar ser revisto, assim como vai precisar ser revisto o Sistema das Nações Unidas.
Questões ambientais versus interesses comerciais
- Eu acredito que as Nações Unidas estão perdendo a briga para as instituições que regulam o comércio internacional, sobretudo a OMC – Organização Mundial do Comércio. O meio ambiente fica submetido a lógica do comércio internacional. Há tantas referências a OMC na agenda de implementação de Joannesburgo - a Conferência de DOHA e de Monterrey -, que talvez tivesse sido melhor a gente não fazer a conferência. Porque todo e qualquer tema que está contido na agenda de implementação sempre se encontra no texto claramente limitado por aquilo que já foi discutido no âmbito da OMC. Na minha opinião, se nós circunscrevermos as metas da agenda de sustentabilidade ao que está acertado na agenda comercial, nós teremos uma perda e uma impossibilidade de implementação desta agenda.
- As relações hoje são globalizadas, e requerem mecanismos de conciliação e de arbitragem. Então eu acho que esse enfraquecimento da ONU é extremamente preocupante. Porque se é ruim com a ONU do jeito que ela está, é pior sem ela.
A parcela de responsabilidade social e o exemplo brasileiro
- E não é só esse formato de evento, mas também é o formato de acoplamento e de participação da sociedade civil no esquema de megaconferências. Porque tem uma parte que ninguém fala, mas que é muito importante ressaltar que é a seguinte: se é verdade que não havia muito otimismo em relação a Joannesburgo, porquê a postura norte- americana forçava os países do G8( grupo dos oito países avançados) a terem uma postura muito travada.
- Eu acho que foi pior do que se esperava, mas não havia muito otimismo sobre a conferência oficial. Agora, havia um grande otimismo em relação ao Fórum Global, que reuniria 50 mil pessoas da sociedade civil simultaneamente a conferência oficial, e o Fórum Global também foi um grande fracasso. Se esperava que 50 mil pessoas reunidas em Joannesburgo fariam muita pressão sobre a conferência oficial. Então eu acho que a sociedade civil também tem que refletir as causas desse fracasso, que não são só as causas locais, o fato de que o Fórum Global ficou a 50 km da conferência oficial, numa área periférica de Joannesburgo. Ou o fato de que as organizações da África do Sul, da sociedade civil, que ficaram responsáveis pela organização, brigaram muito entre si. Portanto, ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde as ONGs – Organizações não- governamentais brasileiras seguraram no centro da organização do Fórum Global, que foi um sucesso. Lá isso não aconteceu, mas eu acho que há uma certa acomodação da sociedade civil a esse mecanismo das conferências internacionais que também precisa ser reavaliado, e aí eu penso que nós temos uma diferença entre 1992 e 2002 , que, na época, é um paradoxo.
As diferentes conjunturas e as perspectivas para o Fórum Social Mundial
- Em 92 era o auge da hegemonia do receituário neo - liberal, o receituário de privatização e de vilanização do Estado. Esta idéia de que precisava diminuir o tamanho do Estado, de que precisava liberalizar a economia é uma coisa que deslumbrava todo mundo. Objetivamente, até três anos atrás, nós considerávamos que a Argentina era um grande paradigma, e a Argentina quebrou. Então o que a gente vê foi que, por incrível que possa parecer, num processo, num momento de alta hegemonia do receituário neo- liberal nós tivemos uma conferência internacional com avanços muito significativos, e com relativo sucesso que foi a conferência do Rio. E agora, a conjuntura mundial que cercou Joannesburgo é uma conjuntura de crise do ideário neo- liberal, e do surgimento de um movimento muito interessante que é o movimento de ante- globalização, que vem ganhando um consistência que faz com que ele se transforme de um movimento de ante- globalização em um movimento por uma globalização solidária, e eu acredito que o Fórum Social Mundial é um elemento central nisso, e tenho expectativa de que essa articulação da sociedade civil mundial em torno do Fórum Social avance para uma pauta propositiva. Não é uma pauta que diga todos os detalhes do que seria uma nova globalização, mas que se articule em torno de algumas idéias força, se articule em torno de idéias força como, por exemplo, a sustentabilidade ambiental e a justiça ambiental, em torno de outros pontos que dentro da diversidade desse movimento do Fórum Social Mundial são pontos comuns. E eu acho que, pelo resultado da eleição brasileira, o Brasil acaba cumprindo um papel importante nisso.
As chances de o Brasil implementar o que propôs em Joannesburgo
Apesar da decepção após a Rio + 10, a possibilidade de o Brasil anunciar unilateralmente que vai começar a implementar as propostas levadas à Joannesburgo é uma idéia a ser considerada.
- O grande desafio de Joannesburgo era a agenda de implementação, a expectativa de que nós tivéssemos um avanço de transformação dos conceitos e dos acordos internacionais em ações concretas. A proposta que foi linha de frente do Brasil foi a proposta da meta de 10% energia renovável, que infelizmente não foi aprovada, mas eu acho que o Brasil , pela sua própria condição de matriz energética, pode implementar isso. Além disso, o nosso país articulou a chamada iniciativa latino- americana, que é uma iniciativa voluntária dos países da América latina, liderados pelo Brasil, que coloca uma série de compromissos de implementação de metas de sustentabilidade na escala continental.
- Nós temos hoje relações multipolares nas negociações internacionais e eu acho que o Brasil deveria apostar em ter uma liderança no G77, bem como formar blocos com países em cima de interesses comuns.
- A idéia de o Brasil tomar para si a tarefa de ter uma liderança internacional implica necessariamente que o nosso país tenha uma autonomia relativa em relação ao G77( grupo correspondente aos países em desenvolvimento), porque grande parte dos movimentos brasileiros, na minha opinião, foi prejudicada por uma excessiva centralização do Brasil no grupo dos países em desenvolvimento. Muitas propostas que o Brasil levou à Joannesburgo foram derrotadas dentro do G77, sobretudo àquelas que dizem respeito a energia, em função de que os países árabes bloquearam estas propostas. Então nós tínhamos acordos no âmbito de vários países do G8, mas não tínhamos dentro do 77. E eu acho que o Brasil deve explorar essas contradições em temas importantes como a questão dos subsídios agrícolas, por exemplo, onde a UE(União Européia), até o final, tendia a aceitar uma redação condenando os subsídios e a França bloqueou de última hora. O Brasil precisa ter capacidade de compreender estas sutilezas do cenário internacional para estabelecer alianças e poder avançar na agenda internacional.
Cláudio Langone é Secretário Estadual do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul e Presidente da Abema (Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente).
O meio ambiente e os interesses comerciais - Luciana Togeiro
novembro 30, 2002 by ibps
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“Não basta chegar lá, entrar numa posição de confronto e se recusar. Não está sendo eficaz. Tem que ser pragmático. O reconhecimento inevitável do pragmático é você perceber que a coisa está em curso e o que você tem a fazer é se posicionar da forma mais estratégica para os interesses econômicos e ambientais do país.”
Aprovada em novembro de 2001 pela 4ª Conferência Ministerial da OMC - Organização Mundial do Comércio, a nova rodada de liberalização multilateral imprimiu as questões estão sendo discutidas entre os mais de 140 membros da organização. Nos principais temas da DOHA estão os itens: Implementação; Agricultura; Serviços; Acesso a Mercados de Produtos Não Agrícolas; TRIPs (Acordo de Direitos de Comércio Relacionados à Propriedade Intelectual); Política de Competição; Investimentos; Transparência; Regras; Comércio e Meio- Ambiente; Entendimento de solução de disputas; Economias Pequenas; Comércio Eletrônico; Comércio, Dívida e Financiamento; Comércio e Transferência de Tecnologia; Cooperação Técnica e Capacitação; Países Menos Desenvolvidos.
Em entrevista concedida durante o evento promovido pela Petrobras “Economia e Sustentabilidade”, que ocorreu nos dias 21 e 22 de novembro deste ano, em Porto Alegre, RS, a Coordenadora do Curso de Graduação em Economia da UNESP, Luciana Togeiro de Almeida, falou um pouco sobre algumas questões importantes, entre elas, a Agenda DOHA, o livre comércio e as polêmicas discussões que envolvem a integração entre interesses comerciais e ambientais.
A Agenda Doha
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A Agenda DOHA são as negociações comerciais no âmbito da OMC e tiveram início em novembro do ano passado(2001). Nessa Rodada DOHA tem uma pauta geral de negociações sobre temas que vão desde a implementação efetiva de acordos já firmados na rodada anterior que foi a Rodada Uruguai(Uruguay Round - 1986/1994). Havia uma queixa, principalmente de países em desenvolvimento, de que acordos da Rodada Uruguai não foram efetivamente implementados. Então tem um item na pauta da DOHA que é o de reforçar os mecanismos de implementação de acordos já firmados. E tem outros itens que são revisão do acordo de agricultura, de eliminação de subsídios - que interessa muito para o Brasil e que é o tema, pode-se dizer, mais destacado que o Itamaraty está dedicado. E tem a discussão ambiental, que aparece de forma explicitamente anunciada em (naqueles) três parágrafos. Mas o tema ambiente, você tem interface com ele em vários outros itens constantes da pauta.A questão do meio ambiente a mercê dos interesses comerciais
LT:
A discussão que normalmente se levanta é se a OMC é um fórum que deve ser privilegiado para impor compromissos ambientais. Se isso deve ser feito e obviamente a questão relacionada a isso é : interessa para países em desenvolvimento, para o Brasil, que o tema ambiental seja tratado no âmbito da OMC? E, caso ele seja tratado, quais as melhores formas de tratamento, que sejam compatíveis com interesses estratégicos de países em desenvolvimento?A queixa do movimento ambientalista é essa. Que na OMC sempre falam mais alto os interesses econômicos e comerciais em detrimento da causa ambiental.
Falando de forma bem simplificada, o que eles dizem é que a OMC é um órgão dedicado a missão do livre comércio internacional e as experiências dos países que promoveram abertura comercial plena são experiências que evidenciam que piorou a situação ambiental. Os estudos empíricos que algumas ONGs - Organizações não- governamentais importantes encomendaram apresentam esse resultado. Que a abertura dos países não leva a solução dos problemas ambientais. O pensamento mais liberal diz: a abertura econômica gera eficiência econômica, ganhos de produtividade, ganhos de competitividade. Inclusive é uma abertura limpa, que leva a uma melhoria da situação ambiental. Mas tem um lado que é a crítica do movimento ambientalista.
Quando você fala em movimento ambientalista…
LT:
Quando eu falo em movimento ambientalista, eu estou me referindo a algumas ONGs importantes. A intenção nem é citar nomes. Eu quero falar desse movimento mais organizado e mais agressivo. Então, essa leitura deles, com relação ao livre comércio, eu também assino embaixo. Realmente, já está bastante evidente que o livre comércio não é a solução econômica, ambiental ou muito menos social para os países. O aumento da interdependência das economias nacionais com a economia internacional, ele automaticamente não leva a ganhos econômicos, ambientais e sociais.A idéia é a seguinte: como o livre comércio não garante a solução, então a gente tem que fazer com que se faça restrições ao livre comércio, restrições comerciais.
Então, o movimento ambientalista, esse que eu estou me referindo, em geral, acredita que a imposição de restrições comerciais é um caminho acertado para avançar os compromissos ambientais em países em desenvolvimento ou daqueles países avançados entre eles também.
Mas , pensando nessa relação norte- sul, seria dar o aval para que sejam aprovados na OMC restrições ao livre comércio internacional. Ou seja, permitir o uso de barreiras comerciais motivadas por questões ambientais, o que já ocorre, mas muitos ambientalistas ainda acham pouco, e se queixam que a OMC até agora foi muito reticente em dar apoio a causa ambiental e continua favorecendo muito mais interesses econômicos e comerciais, passando por cima da causa ambiental.
E o que você acha?
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Eu acho que não, eu acho que já avançou, aliás é compatível com a leitura que o Eric Neumayer - Diretor de Meio Ambiente e Desenvolvimento da Escola de Economia de Londres fez (referindo-se a palestra ministrada pelo diretor no mesmo evento “Economia e Sustentabilidade”, promovido em Porto Alegre em novembro/02), de que a OMC tem se inclinado cada vez mais a oferecer regras compatíveis com as demandas ambientais. “Environment friendly rules”, ele usou essa expressão. Então, há uma tendência da OMC acomodar um pouco essa pressão do movimento ambientalista e de interesses de Governos de países avançados, para que suas regras sejam aprimoradas para as reivindicações ambientais. Já a leitura dos países em desenvolvimento é que essa vinculação é sempre problemática para nações em crescimento como o Brasil, é a leitura do Itamaraty. Qual é a posição diplomática brasileira frente a esta tendência de mesclar a negociação comercial com a ambiental? Eles sempre foram contrários a isso. É sempre em leitura de que isso é em detrimento dos interesses do país. Não nos interessa participar de negociações internacionais vinculando os dois termos. A minha leitura é que os dois termos vêm sendo integrados, a interação já está ocorrendo, essa agenda conjunta já está existindo.Quando você fala em restrições comerciais, poderia exemplificar que tipo de restrições?
LT:
Restrições comerciais com propósitos ambientais, de forma a permitir aos países o direito de colocar uma veto, uma proibição de importação de uma mercadoria exportada pelo Brasil ou por qualquer outra economia em desenvolvimento. Ou até entre eles, alegando a necessidade de uma adequação do processo produtivo daquela mercadoria, que aquela mercadoria não é produzida com padrão de emissão que já é o aprovado na legislação ambiental do país importador da mercadoria.Então, você colocar uma medida comercial, uma restrição comercial alegando um problema ambiental, um problema ambiental relacionado ao processo produtivo e até relacionado ao produto final. Por exemplo, um produto final contendo, vamos supor, flúor. Se ele for consumido pelos meus consumidores internos isso vai gerar um problema de saúde pública, talvez gerar um dano ambiental quando for consumido internamente no país. Já tem vários casos de conflitos comerciais registrados, no GATS (Acordo Geral de Comércio e Serviços), na OMC, motivados por questões ambientais, em que o país colocou um veto comercial alegando inadequação ambiental da mercadoria. Então o país importador restringiu o acesso daquela mercadoria no seu mercado alegando problemas ambientais.
Pode ocorrer algum tipo de conflito entre as decisões que foram acertadas em Joannesburgo e as decisões da Agenda DOHA?
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Não é o caso porque praticamente não se acertou muita coisa em Joannesburgo, basicamente por isso. Então, do que foi acertado em Joannesburgo, talvez o compromisso com o reforço à questão da biodiversidade, que é um tema pendente para a OMC lidar e que significa a análise de adequação entre o acordo de Direito de Propriedade Intelectual e a Convenção de Diversidade Biológica. O tema é uma área de conflito potencial entre acordos ambientalistas tirados de Joannesburgo, ou reafirmados em Joannesburgo, e o TRIPs - Acordo sobre o Direito de Propriedade Intelectual -, que é um acordo que saiu da Rodada Uruguai, um acordo regulamentado e acompanhado pela OMC. O que o movimento ambientalista quer é que ele seja consistente com os compromissos da CDB- Convenção sobre Diversidade Biológica. Por exemplo, a CDB diz que os Estados de Nação tem soberania na exploração dos seus recursos biológicos e genéticos. Não pode haver, por exemplo, patenteamento por uma empresa estrangeira de uma planta, de um princípio ativo da biodiversidade local, a CDB diz. Primeiro, patenteamento de organismos vivos é uma coisa complicada, existem problemas aí de você estar patenteando organismos vivos; e o TRIPS, pelo texto dele, até permite patenteamento de organismos vivos. Na CDB, a exploração de recursos genéticos tem que dar direito de participação nos lucros para as comunidades nativas locais. Então, se tiver que patentear, que a patente seja em nome da comunidade local e não de uma empresa privada que vai se apropriar daquele conhecimento tradicional que os nativos já dominaram.Uma última posição sobre a questão do livre comércio e a vinculação do comercial com o ambiental
LT:
A idéia é a seguinte: a discussão vinculada comércio / meio ambiente, no plano das negociações internacionais, é polarizada. De um lado, pelo movimento ambientalista que denuncia que o livre comércio traz problemas ambientais e portanto tem que ser criticado. Por isso mesmo é que eles vão lá toda vez que tem conferência da OMC e fazem quase que um fórum paralelo, denunciando que a OMC é a grande vilã da globalização e das questões ambientais. Acontece que, ao mesmo tempo em que eles denunciam que a OMC é a vilã da história, eles querem que a OMC reforce as suas regras, os seus conjuntos de acordos, para incorporar a questão ambiental.A minha posição é : você é contra os males da globalização e contra os organismos multilaterais que são identificados como os protagonistas, os que operacionalizam as tendências da globalização - a OMC seria um deles -; no entanto, ao mesmo tempo você vai lá e quer que a OMC imprima os seus poderes de disciplinar os seus países membros impondo regras com propósitos ambientais. Isso, à primeira vista, parece ser bom para a causa ambiental, mas pode trazer sérios prejuízos para o desenvolvimento sustentável.
Porquê?
LT:
Porque você não pode mirar na causa exclusiva de ganhos ambientais, você tem que ter um enfoque de desenvolvimento sustentável (aliando o econômico, o social e o ambiental). O fato de você vincular esses compromissos no âmbito da OMC pode ser uma disciplina comercial mais deletéria do que favorável à construção do desenvolvimento sustentável de países em desenvolvimento. Então é um discurso meio sinuoso, meio perigoso. Você é contra, é contra mas o que você quer é que a OMC discipline isso para você , que é a minha discordância com o Eric Neumayer. O Eric acha que deve ter um “greening da OMC”, isto é, um esverdeamento das negociações comerciais da OMC. Isso é o mesmo que dizer que a Organização Mundial de Comércio deve ampliar os seus poderes disciplinadores de causas ambientais, a OMC que essencialmente é um organismo voltado para disciplinar relações de comércio. Aí você está dizendo: Não, mas tem que disciplinar relações de comércio compatíveis com o meio ambiente. Isso significa estabelecer acordos mais restritivos, e na realidade o meio ambiente tem que ser interpretado amplamente. O que a gente tem que entender é que vai ter a contrapartida, por exemplo, das tecnologias para dar conta destes padrões que eles querem que a gente tenha, então tem que ser uma abordagem mais ampla. Essa percepção de que pode ser um risco para países em desenvolvimento é a que normalmente o Itamaraty tende a apresentar, que é sempre um risco, uma ameaça você vincular as duas questões.A minha leitura, e de outros também, não é exclusiva minha, é que essa vinculação vem sendo colocada. Já foi colocada na Rodada Uruguai, está na Agenda Doha, está no cronograma de negociações da Alca, e temos que nos posicionar frente a isso. A vinculação entre comércio e meio ambiente e a postura tradicional que era a de recusar a negociação sobre esse tema não adianta mais. O Itamaraty tem que fazer um esforço de ouvir os vários outros segmentos da esfera política, da sociedade, ONGs, para levar uma agenda mais propositiva de negociação. Não basta chegar lá, entrar numa posição de confronto e se recusar. Não está sendo eficaz. Tem que ser pragmático. O reconhecimento inevitável do pragmático é você perceber que a coisa está em curso e o que você tem a fazer é se posicionar da forma mais estratégica para os interesses econômicos e ambientais do país.
Luciana Togeiro de Almeida é Coordenadora do Curso de Graduação em Economia da UNESP e Presidente da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECO - ECO).
Uma nova moeda
novembro 30, 2002 by ibps
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*Carlos Adilio Maia do Nascimento
O Protocolo de Quioto, celebrado em 1997, estabelece metas e prazos para os países reduzirem suas emissões futuras de dióxido de carbono - CO2 e outros gases responsáveis pelo aquecimento da Terra. Cria, em seu artigo 12, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo - MDL, que tem por objetivo diminuir os gases de efeito estufa através de mecanismos como sumidouros de carbono, investimento em tecnologias limpas, eficiência energética e fontes alternativas de energia.
Como forma de cumprir parte de seus compromissos, países desenvolvidos poderão financiar projetos em países em desenvolvimento. O MDL institui o mercado mundial de carbono. O Brasil apresenta potencial quase ilimitado para a implantação de grandes sistemas agrícolas que, além de serem sumidouros de carbono, serão responsáveis pela produção de novos combustíveis, bem como de novas matérias- primas para a indústria. Países que tiverem essa potencialidade serão doravante atrativos crescentes aos fluxos internacionais de capital.
Com este entendimento, aconteceu no mês de novembro último, no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, workshop patrocinado pelo BNDES, Ministério de Ciência e Tecnologia e a UNCTAD, quando foi apresentada e discutida a proposta preliminar de um Modelo Institucional e Operacional para implementação no Brasil do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo.
Cerca de cinqüenta entidades convidadas opinaram sobre este novo tipo de ativo - Reduções Certificadas de Emissões - RCE, para registro doméstico, e CER - Certified Emissions Reductions, para registro internacional - que serão oferecidos ao mercado, tendo como lastro grandes projetos de MDL em nosso país.
O BNDES deverá credenciar empresas certificadoras de projetos, bem como assumirá o papel de operacionalizar os novos ativos.
É muito importante que o grande Banco de Desenvolvimento brasileiro assuma precocemente a condução deste processo. A credibilidade do BNDES certamente facilitará a absorção dos novos ativos, tanto em nível nacional como internacional.
A plena operacionalização do MDL deverá trazer um novo caminho para a economia e uma nova ética para os investidores. Aqueles capitais hoje aplicados em especulação e que tanto mal vêm causando aos povos em desenvolvimento, poderão transferir- se para novas atividades, trazendo dupla remuneração aos seus investidores: justo e garantido rendimento e satisfação por estarem investindo na sustentabilidade do planeta.
*Carlos Adilio Maia do Nascimento é presidente do Instituto Brasileiro de Produção Sustentável e Direito Ambiental - IBPS e diretor da Empresa Nacional de Tecnologias Limpas - ENTL.
Futuro governo gaúcho tenta esvaziar Fórum Social Mundial
Porto Alegre - A um mês da posse, o governador eleito gaúcho, Germano Rigotto (PMDB) resolveu aplicar um duro golpe numa das jóias da coroa da gestão petista no Rio Grande do Sul: o Fórum Social Mundial, evento que colocou a capital gaúcha no roteiro turístico mundial.
Os 2,7 milhões de reais que o governador Olívio Dutra pretendia destinar à terceira edição do encontro serão reduzidos a 1,8 milhão de reais. A decisão foi comunicada pelo coordenador da equipe de transição do Governo Rigotto, João Carlos Brum Torres, depois de duas rodadas de três horas de reunião na quinta-feira com integrantes do Comitê Nacional de Organização do Fórum Social.
“Reconhecemos a importância econômica do fórum social para a cidade, mas vamos herdar um Estado com receita prevista de 613 milhões de reais e despesas comprometidas de 606 milhões de reais”, justificou Brum Torres.
O golpe foi registrado do outro lado. “A qualidade do evento pode ficar comprometida”, disse Sérgio Haddad, da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong), uma das entidades que compõem o Comitê Organizador do 3 Fórum Social Mundial.
Haddad, que participou da reunião em Porto Alegre, disse que o comitê iria estudar formas de compensar o corte imposto pelo futuro governo gaúcho, mas não saiu do encontro sem dar o troco –descartou qualquer mudança de agenda no fórum, o que foi confirmado por Brum Torres.
“Propusemos uma pauta de discussões mais ampla, uma gama mais pluralista de idéias, mas os integrantes do comitê organizador disseram que o tema deste ano é inegociável”, admitiu João Carlos Brum Torres à Agência Reuters.
Buscando estratégias
O Fórum Social Mundial surgiu em 2001 como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, sofisticada estação de esqui na Suíça que há mais de 20 anos reúne os representantes dos países mais ricos do mundo com o objetivo de discutir os rumos do capitalismo e reafirmar o modelo econômico liberal.
A primeira edição do Fórum Social Mundial aconteceu na capital gaúcha em janeiro de 2001 e reuniu cerca de 20 mil participantes com a pretensão de ser um espaço diversificado e aberto ao debate e à reflexão sobre os mecanismos e instrumentos da dominação do capital.
O 2 Fórum Social Mundial de Porto Alegre, realizado entre os dias 31 de janeiro a 5 de fevereiro deste ano, foi inevitavelmente pautado pelos atentados de 11 de setembro ao World Trade Center e ao Pentágono nos Estados Unidos, mas centrou fogo na discussão de buscas de alternativas ao modelo atual.
O evento do ano que vem pretende deslocar o foco para a identificação de estratégias de atuação na busca do almejado “outro mundo possível” descrito nos slogans do fórum.
Cinco áreas temáticas foram eleitas para dar substância ao encontro: “Desenvolvimento democrático sustentável”, “A diferença, a igualdade e os direitos humanos”, “Cultura e mídia”, “Poder político e democracia” e “Ordem mundial e organismos internacionais”.
Em 2002 reuniram-se em Porto Alegre 51.300 participantes e 15.230 delegados, representantes de 4 mil ONGs de 131 países, e mais 11.600 jovens. Se os números deste ano já eram impressionantes, os previstos para o ano que vem são de dar inveja. As contas do comitê organizador estimam para a terceira edição cerca de 100 mil participantes nos seis dias do evento.
No lançamento oficial do Fórum Social Mundial, em 22 de setembro, na Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro de Porto Alegre, foi anunciada a descentralização do encontro.
O evento seria pulverizado por cantos da cidade como o campus da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RS), o ginásio de esportes do Gigantinho, o estádio Beira-Rio, do Sport Club Internacional, e os armazéns do Cais do Porto.
O dinheiro do governo gaúcho seria para pagar principalmente o aluguel destes espaços. Com quase um milhão a menos no caixa é possível que o primeiro sacrifício seja manter um pouco da centralização dos encontros anteriores.
Mais holofotes
Em 2003, reforçado com a presença prevista na abertura de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República eleito pelo PT, o Fórum Social Mundial provavelmente pode dispensar os recursos cortados pelo futuro governo do Estado e ainda assim ser capaz de suplantar todos os outros em projeção.
Na quinta-feira à noite, o vice-governador eleito Antonio Holfeldt, do PSDB, tentava convencer às integrantes do Movimento das Mulheres Progressistas do PTB, partido que se aliou à candidatura Germano Rigotto no segundo turno das eleições ao governo do Rio Grande do Sul, do óbvio: o Fórum Social Mundial havia introduzido Porto Alegre no roteiro turístico mundial e representava a salvação de um comércio e de uma rede hoteleira entregues às moscas com a debandada rumo ao litoral no verão.
“Tentar destruí-lo em 20 dias de governo não seria prudente”, avisou Holfeldt. “O fórum é importante. Nosso trabalho deve ser arejá-lo. Nossa luta tem de ser no campo do PT.”
Os aliados de segundo turno não se conformaram que o futuro governo tenha apenas cortado a verba do fórum; alguns queriam seu fim. Mas, com a experiência de 20 anos de vereador de Porto Alegre nas costas, Holfeldt deixou um pouco da sutileza de lado para alertar para o perigo do suicídio político.
“Não podemos permitir que daqui a quatro anos não só o PT volte ao poder como volte consagrado”, afirmou. A platéia fez muxoxo.
Uma ilha a serviço da pesquisa
A Fundação Fernando Lee, mantida pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), está recuperando a Ilha dos Arvoredos, no Guarujá, litoral Sul de São Paulo, para abrigar novos projetos ligados à biodiversidade e energias alternativas (eólica, solar e das marés). Com isso, o local, conhecido como Ilha Encantada ou Ilha da Fantasia, deverá voltar a ter a destinação prevista por seu idealizador, o engenheiro Fernando Lee: ser um centro de pesquisas científicas e ambientais.
Palco de experimentos inovadores e excentricidades, a ilhota parece cenário de filme de ficção dos anos 60 e 70, justamente a época em que a maior parte de sua estrutura foi edificada. Localizada a 1.600 metros da praia de Pernambuco e formada por um bloco de rochas de 37 mil metros quadrados e 28 metros de altura, com algumas árvores sobre os rochedos, a ilha foi cedida, em 1950, ao santista Fernando Eduardo Lee, filho de imigrantes norte-americanos, que dedicou mais de 40 anos ao local. Visionário, Lee tornou a ilha auto-suficiente em água potável e energia, sendo pioneiro no País na utilização de energia eólica e solar.
Ao completar 80 anos, o engenheiro criou a Fundação Fernando Lee, para garantir a continuidade de seu trabalho e administrar a ilha. Isso não impediu, porém, que o projeto entrasse em decadência, sobretudo após a morte de seu idealizador, em 1994. A Universidade Associação de Ensino de Ribeirão Preto (Unaerp) incorporou a Fundação em 1997, quando iniciava o processo de instalação de seu Campus Guarujá, tendo iniciado a restauração e recuperação da ilha.
“Nosso objetivo é colocar a ilha em funcionamento novamente e transformá-la em base para pesquisas nas áreas de biodiversidade, biologia marinha e energias alternativas”, diz o diretor executivo da Fundação, Paulo Mantovan. Com a estrutura física já recuperada e uma estação meteorológica instalada no local, a intenção agora é colocar em funcionamento novamente a torre, em formato de farol marítimo, para captação de vento para produção de energia, e os equipamentos de energia solar, que consistem em captadores de células de sílica, que acionam uma bomba para puxar água do açude, além das placas fotovoltáicas e dos “solaróides” - um dos primeiros aquecedores solares instalados no Brasil.
Aproveitamento das ondas
O primeiro projeto a ser implantado, nesta nova fase, é o de aproveitamento da força das ondas para gerar energia. Desenvolvido pelo engenheiro civil Nelson Parente Júnior, o sistema tem um custo de implantação de US$ 2 mil dólares o quilowatt (KW) e ocupa em três pontos da ilha.
A piscina de água salgada renovável, originalmente construída para lazer, será destinada a estudos biológicos e marinhos. Seu sistema de encher e esvaziar com as marés será adaptado para captar as ondas do mar, abrindo e fechando uma comporta de água e movimentando um gerador, acoplado diretamente na bóia.
Em um segundo ponto da ilha, uma tubulação instalada por baixo d´água deve aproveitar a força das águas nas rochas para mover um motor hidráulico. Esse gerador será utilizado também para controlar tanques de piscicultura, instalados por Lee para pesquisas com peixes de água doce e salgada. Por fim, na parte da frente da ilha, voltada para o Guarujá, ficará um terceiro sistema, de bóias que usam pressão e vazão hidráulica para movimentar pistões e gerar energia.
“Pretendemos conseguir, nos três locais, uma produção de 30 KW. O objetivo é analisar as variações de onda, vento e sol e ver o comportamento dos três tipos de geradores instalados na ilha ao longo do ano”, explica Parente. O projeto deverá custar R$ 60 mil e está em análise pela Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep), para entrar em execução.
Manutenção
A manutenção da Ilha do Arvoredo é uma das condições da prefeitura para a concessão do prédio, onde foi instalado o Campus Guarujá da Unaerp. “A universidade já investiu cerca de R$ 300 mil na recuperação do local, além dos cerca de R$ 25 mil mensais para manutenção e pagamento dos 11 funcionários, que se revezam na ilha. Até o momento, só utilizamos recursos próprios, mas chegamos a um limite e precisamos conseguir outros meios de arrecadação”, explica Mantovan.
Segundo o diretor executivo da Fundação, a intenção da Unaerp é colocar o local à disposição de pesquisadores e criar convênios e parcerias com outras instituições de pesquisa e universidades, inclusive para cursos de extensão e MBA. “Temos alojamento para 20 pessoas na ilha”, diz.
Maura Campanili
Revap é multada em R$ 210 mil por poluir atmosfera
A Refinaria Henrique Lage (Revap), da Petrobras de São José dos Campos, na região nordeste do Estado de São Paulo, foi multada em R$ 210,442 pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) por emitir, na última terça-feira, fumaça preta na atmosfera e causar danos ao meio-ambiente. A Cetesb está exigindo também que a refinaria envie, no prazo de dez dias a contar do recebimento da notificação, um relatório de medidas de prevenção para evitar novos acidentes. Em uma semana, duas falhas na unidade de processamento de gás de cozinha e gasolina causaram a emissão irregular de fumaça no meio ambiente. Em um dos incidentes, a fumaça atingiu uma escola do bairro Campos, de São José, provocando mal-estar em 30 pessoas. No primeiro incidente, a multa foi de R$ 105 mil. Segundo informações iniciais da refinaria, houve uma falha no sistema operacional na unidade de craqueamento catalítico (processamento de GLP e gasolina). Com o desequilíbrio na unidade houve a queima de gasóleo, produto intermediário no processo de destilação da gasolina e do gás de cozinha, o que causou a fumaça. Até a tarde desta sexta-feira, a Revap ainda não havia sido notificada da multa e das exigências da Cetesb. Segundo a assessoria de imprensa da refinaria, o relatório técnico com as causas do acidente deve ser divulgado na próxima semana. A Revap afirmou que pretende intensificar o treinamento das comunidades que moram ao lado da empresa para que, em caso de novos acidentes, não ocorra pânico e as pessoas saibam como se proteger. Simone Menocchi
UE impõe maior rigor para regras de transgênicos
Bruxelas -
A decisão foi resultado de uma queda de braço durante toda quinta-feira. De um lado, estavam oito países membros (Espanha, Grécia, Bélgica, Holanda, Suécia, Finlândia, Reino- Unido e Irlanda) que preferiam manter as regras tais como elas são hoje, ou a etiquetagem obrigatória a partir de 1% de OGM. De outro, incluindo a presidência dinamarquesa, estavam França, Itália, Portugal, Áustria e Luxemburgo, que defendiam a etiquetagem a partir de 0,5%, aliás limite indicado até o momento pelo Parlamento Europeu.
Apenas Alemanha, por meio da ministra da agricultura, a ecologista Renate Kuenast, estava exercendo uma posição de árbitro, objetivando uma taxa que variasse entre 0,5% e 1%. As posições ficaram nítidas depois de um debate público, realizado pela manhã. Mas, o compromisso chegou a termo depois de intensas negociações de corredores, permitindo à presidência da UE conseguir apoio da França, Alemanha e Itália, inicialmente reticentes.
“Conseguimos uma maioria qualificada para nossa proposta”, declarou, ao final, o ministro dinamarquês da agricultura, Mariann Fischer Boel. O Reino- Unido votou contra, alegando que considerava as medidas “restritivas”.
Samla Mesquita
Brasil ainda mantém lixões a céu aberto
Florianópolis
Mas, na verdade, esse “sumidouro” tem um funcionamento bastante complexo que é desconhecido das pessoas - que ignoram, inclusive, que 76% de todo o lixo produzido no Brasil vão para lixões a céu aberto, sem qualquer tipo de tratamento que minimize os impactos ambientais provenientes dessa deposição. No caso de Florianópolis, o envolvimento intenso da comunidade na cobrança de uma destinação adequada para o lixo municipal, a partir da década de 80, resultou num processo de coleta e destinação final bastante complexo - e hoje, possivelmente, também desconhecido para a maioria dos moradores da cidade.
Uma vez ensacado e levado até o ponto de espera do serviço público de coleta, o lixo é recolhido por um caminhão da Companhia de Melhoramentos da Capital (Comcap) - empresa de economia mista que tem como atribuição principal executar os serviços de limpeza pública do município -, segue para o Centro de Transferência de Resíduos Sólidos mantido pela empresa no bairro Itacorubi, passa para o caminhão da Formacco Transambiental - empresa privada responsável pelo destino final dos resíduos em nove municípios da Grande Florianópolis e Litoral Norte - e viaja mais 50 quilômetros até o aterro sanitário localizado em Tijuquinhas, município de Biguaçu.
No caso das localidades mais distantes, como os distritos do Pântano do Sul e Ingleses (situados a mais de 30 quilômetros do centro), e considerando todo o percurso cumprido pelos caminhões de coleta no trabalho de recolhimento, deduz-se que muitos dos saquinhos de lixo dos florianopolitanos viajam mais de 100 quilômetros até serem sepultados no aterro da Formacco.
O processo dá conta de recolher e dar destino final adequado para as 355 toneladas diárias de lixo produzido em Florianópolis, volume que aumenta para 431 toneladas por dia durante os meses de verão. O montante gasto para manter a cidade limpa - incluídos aí os serviços de coleta, pessoal, equipamentos, varrição, coleta de lixo pesado, manutenção de vias públicas e coleta seletiva, além das despesas administrativas - atinge R$ 2 milhões por mês.
Trabalho da organização não- governamental Centro de Estudos Cultura e Cidadania (Cecca), entretanto, calcula em US$ 2,2 milhões o gasto anual somente com o transporte para o aterro, e em US$ 4,5 milhões o gasto total, por ano - considerando nesse último cálculo as despesas com a coleta, o transporte e a deposição do lixo, sem somar os valores para os outros serviços de limpeza urbana.
Percentuais de reaproveitamento são inexpressivos
Dar destino tecnicamente adequado ao lixo não significa que tudo esteja bem. O volume de resíduos sólidos domiciliares produzido em Florianópolis está longe de manter-se estável. Pelo contrário: nos últimos dez anos, a coleta anual aumentou de 55.414 toneladas (1990) para 111.266 (2000), um acréscimo de 100,8% no montante de resíduos, enquanto a população cresceu 34% desde 1991 - passou de 255.390 habitantes para 342.315, segundo dados do IBGE. Os dados referem-se somente ao material encaminhado para a coleta convencional e permitem deduzir um aumento considerável na produção de lixo per capita.
Os materiais recicláveis ainda compõem a grande maioria do lixo produzido nas cidades brasileiras, embora os percentuais de reaproveitamento sejam pouco expressivos. Estudo que identificou a composição dos resíduos em 20 cidades brasileiras de médio porte, citado por Ariane Khunen no livro “Reciclando o Cotidiano: Representações Sociais do Lixo” (Editora Letras Contemporâneas, 1995), indica que apenas 8% do montante são constituídos de rejeitos - materiais não-reaproveitáveis.
A maioria (59%) é formada por matéria orgânica - passível de reciclagem por meio da compostagem -, seguida por papel, plástico, vidro e metal. No caso específico de Florianópolis, estudo executado em convênio entre a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Comcap dá conta de que cerca de 35% do total de lixo proveniente da coleta normal poderiam ser encaminhados para a seletiva. São materiais como papéis, plásticos e latas que, se triados na origem e coletados em separado, poderiam elevar em 2,2 mil toneladas mensais o montante coletado atualmente no programa de coleta seletiva, que chega a 500 toneladas por mês.
Mais do que garantir um destino adequado ao lixo e o reaproveitamento dos materiais através da reciclagem, a triagem domiciliar do lixo e o encaminhamento dos resíduos para a coleta seletiva podem contribuir, em última análise, para que a sociedade repense sua forma de consumir, buscando a responsabilidade com as questões ambientais, analisa Khunen.
“A reciclagem oferece a possibilidade de solucionar os problemas criados pela existência de resíduos sem provocar ainda mais riscos ecológicos, mas não deve se tornar uma panacéia para os males ambientais da sociedade contemporânea”, alerta a autora, no trabalho citado. Paralelas às campanhas que buscam a maior adesão dos munícipes, como a que a Comcap começou a desenvolver em agosto de 2001, são necessárias medidas que sobretudo informem a população sobre as justificativas para tal encaminhamento dos resíduos, desde os ambientais e energéticos até os ganhos sociais.
Na verdade, o início da implantação de políticas públicas em prol da coleta seletiva e reciclagem em Florianópolis começou envolvendo de forma bastante enfática a participação das comunidades. Através da implantação do Programa Beija-flor - um dos resultados das discussões ocorridas durante o movimento pela desativação do lixão do Itacorubi -, nove comunidades carentes da cidade chegaram a ter estações de triagem e compostagem do lixo por elas mesmas produzido. Viabilizado através de financiamento de US$ 200 mil obtido junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Beija-flor envolveu também a comunidade do Balneário, no Estreito, de classe média.
Entre 1988 e 1993, período em que o programa foi executado, os resultados foram desiguais nas várias comunidades. Falhas de organização e pouca participação em algumas localidades, entretanto, contribuíram para sua desativação. A implantação em comunidades carentes havia sido uma das exigências do BNDES para a liberação da verba, mas acabou sendo também o primeiro grande obstáculo enfrentado pelos técnicos.
O Beija-flor deixou, porém, como filhote o sistema de coleta seletiva porta-a-porta, que surgiu em março de 1994 - primeira iniciativa do gênero no País. Antes, porém, em 1991 e 1992, começaram os projetos de coleta seletiva nas praias, nos postos de entrega voluntária (PEVs) e de coleta seletiva nas escolas públicas e particulares do município. Hoje, o programa domiciliar de coleta seletiva de lixo atinge 95% da população de Florianópolis. (APL)
Ana Paula Lückman
Coleta de lixo inexiste em 30% dos imóveis
Florianópolis
Entre os Estados brasileiros, o Maranhão é o que tem pior índice de coleta: 67,5% dos domicílios ainda não dispõem de programas com este fim. Piauí, Bahia, Alagoas, Ceará e Acre são os seguintes no ranking, com 63,1%, 51,2%, 50,5%, 47,8% e 47,6% de domicílios sem coleta, respectivamente. Santa Catarina ocupa a 22ª posição na lista, com 10,6% dos domicílios sem coleta, também segundo levantamento do Cempre.
Com 169.590.693 habitantes, o Brasil entra no século 21 com taxa de crescimento demográfico em torno de 1,4% e expectativa de atingir os 211 milhões em 2020, apesar de a taxa de crescimento estar caindo sistematicamente, segundo os dados da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 1996, a população urbana ultrapassou os 67% do total. O número de regiões metropolitanas aumentou de nove, em 1995, para 17, em 2000 - incluindo nesse acréscimo as três criadas em Santa Catarina (Florianópolis, Norte-Nordeste e Vale do Itajaí).
O crescimento populacional e de urbanização contribuem para a necessidade de se criar formas adequadas de gerenciamento de resíduos. O caso de São Paulo, a maior cidade brasileira e uma das mais populosas do mundo, com 10 milhões de habitantes, é um bom exemplo dos desafios impostos pelas montanhas de resíduos domiciliares. Os custos com coleta no município chegam a R$ 1,3 milhão por dia. Não há coleta seletiva: tudo o que é recolhido pelo serviço público segue para os aterros de Bandeirantes e São João.
A exceção fica nas 750 toneladas de materiais recicláveis recolhidos diariamente pelos catadores informais, o que representa uma economia de R$ 45 mil para os cofres públicos a cada 24 horas. Cada morador de São Paulo produz 1,2 quilo de resíduos por dia. O montante é coletado por 375 caminhões com capacidade para até 10 toneladas e 70 carretas de transbordo com volume de 28 toneladas. Se os sacos de lixo enchidos todo dia na megacidade fossem enfileirados, percorreriam 400 quilômetros.
Solução está em reduzir a geração de resíduos
Os números nada modestos começam a ganhar volume na lixeira de cada casa, cada apartamento, cada miniempresa, cada shopping center. Mas o desconhecimento a respeito dos problemas gerados pelo acúmulo de tamanha quantidade de resíduos, e até mesmo a “vista grossa” feita por grandes geradores, são entraves para que se consiga cortar o mal pela raiz: em vez de dar um jeito no lixo, evitar que este seja produzido.
Além das políticas públicas que dêem conta de recolher e depositar todo esse material, há necessidade de políticas paralelas que alertem para a necessidade de empresários e consumidores reduzirem sua dependência de materiais virgens e utilizarem o rico fluxo dos recursos desperdiçados, através da reutilização, refabricação ou compartilhamento, ou através da reciclagem dos materiais. Assim como a extração de materiais virgens, a geração de resíduos pode reduzir substancialmente.
A principal iniciativa neste sentido, em âmbito nacional, é a elaboração da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que está em tramitação no Congresso Nacional. O projeto de lei 203/1991, cujo texto substitutivo reúne 74 projetos sobre resíduos sólidos apresentados no Legislativo federal nos últimos dez anos, classifica os resíduos quanto à origem, à natureza e à forma de gerenciamento. Um dos principais pontos do texto é o que determina que a responsabilidade pela destinação dos resíduos deve ser compartilhada entre poder público, cadeia produtiva e consumidor.
Gerenciamento
No caso das empresas, torna-se obrigatório também que elas elaborem planos de gerenciamento de resíduos, consagrando o princípio de que o gerador é responsável pelo destino final. O projeto estipula também metas mínimas de reciclagem para os segmentos de cervejas, refrigerantes, água, sucos, leite, alimentos, descartáveis de plástico, papel, metálicos e de vidro. Índices de retornabilidade de embalagens e uso de vasilhames retornáveis em estabelecimentos do ramo da alimentação também estão previstos no texto.
A cargo do deputado federal Emerson Kapaz (PPS-SP), que também preside a Comissão Especial dos Resíduos Sólidos da Câmara Federal, o projeto está na sua terceira versão, com 184 artigos, mas deve ter uma quarta versão antes de ir a plenário. Para o deputado, segundo texto divulgado em seu site oficial (www.kapaz.com.br), a demora na aprovação do projeto está ligada à falta de consenso dos deputados, devido ao forte lobby feito por empresas e até por cooperativas de catadores. (APL)
Ana Paula Lückman
