A produção de celulose e a adequada gestão ambiental - Celso Foelkel
maio 13, 2003 by ibps
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Entrevista com Celso Foelkel – presidente da ABTCP O grave desastre ocorrido recentemente com uma indústria de celulose em Cataguases, na Zona da Mata mineira, em que milhões de litros de uma mistura tóxica vazaram de um reservatório da fábrica Cataguases de Papel Ltda., atingindo dezenas de municípios de Minas Gerais e cidades do noroeste e do norte do Estado do Rio de Janeiro, causando irreparáveis prejuízos econômicos, sociais e ambientais às populações destas regiões, chamou novamente a atenção de empresários e órgãos fiscalizadores para uma questão primordial: a necessária e urgente busca de uma adequada gestão ambiental na indústria. Em uma entrevista exclusiva para este boletim, o presidente da ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel, Celso Foelkel, explica os possíveis riscos ambientais da produção de celulose e os procedimentos que devem ser tomados pelos empresários, mostrando, em um relato esclarecedor, iniciativas que precisam se estender não apenas ao setor da celulose, mas a todos os setores da produção industrial. IBPS:
Celso Foelkel:
O setor de celulose e papel é um dos mais dinâmicos e competitivos da economia brasileira. Ele engloba mais de 200 empresas e representa cerca de 1,2% do PIB brasileiro. Sua balança comercial líquida em 2002 acusou um superávit de 2,2 bilhões de dólares, o que é extremamente significativo para o país. O setor é constituído de uma grande diversidade de empresas, como costuma acontecer com os mais diversos setores da indústria brasileira. Há inúmeras empresas atuando no estado da arte tecnológico, com grandes investimentos em proteção ambiental, mas há também empresas mais carentes, com dificuldades até para sua sobrevida, portanto com conseqüentes repercussões nos aspectos ambientais.Com certeza o setor apresenta impacto ambiental, pois ele é grande consumidor e utilizador de recursos naturais em suas atividades de processamento: florestas plantadas, água, solo, energia, gases, ar, minerais, etc. Por isso, toda nova instalação ou ampliação significativa depende de um EIA/RIMA , e para operar, de uma licença de operação emitida pelo órgão ambiental governamental.
Quando se fala em passivo ambiental tende-se a pensar em “terríveis coisas do passado”, que ficam ameaçadoramente preocupando empresas e comunidades. Na verdade, nos conceitos de contabilidade ambiental, temos os chamados ativos ambientais (bens físicos ou recursos do ativo para tratamento da poluição ou para gerenciamento ambiental) e passivos ambientais . Passivo ambiental compõe-se de toda agressão que se praticou ou que se pratica contra o meio ambiente e que gera a necessidade ou a obrigação de se investir um novo valor para reabilitá-lo ou protegê-lo. Esse valor de investimentos potenciais exigidos entrariam e comporiam o passivo ambiental contábil, mais as possíveis obrigações com multas, indenizações, resultados de obrigações com ações civis públicas e processos judiciais ambientais, etc.
Como o setor de celulose e papel tem grande relação ambiental, exigindo portanto contínuos investimentos em estações de tratamento de efluentes, modernizações tecnológicas menos poluentes, controle de emissões aéreas, adequada destinação de resíduos sólidos, reabilitação de áreas degradadas, pode-se dizer que o setor sempre tem a necessidade ou a obrigação de destinar recursos novos para reinvestir em meio ambiente. Portanto, essas áreas específicas, alimentam o seu passivo ambiental contábil de forma continuada. De forma geral, as empresas de celulose tem muita afinidade com tratamentos de final de tubo, o que significa em investimentos para tratar poluentes (estações de tratamento, filtros, incineradores, estações de reciclagem de resíduos, etc.).
IBPS
: Qual o impacto destes passivos?CF
: O impacto do passivo ambiental é tanto financeiro, com necessidades de capital novo para controlar e tratar os efeitos ambientais negativos; como pode ser de real agressão ao meio ambiente e suas conseqüências , se os cuidados e tratamentos não forem feitos adequadamente ou simplesmente forem ignorados e não realizados. Isso é ruim para o meio ambiente, para a natureza, para a sociedade e para o setor, que terá sua imagem fragilizada ante a opinião pública. Por essa razão, o setor precisa cada vez mais se mobilizar para uma conscientização ambiental em todos os níveis das empresas que atuam dentro dele, para evitar que situações de acidentes ambientais com empresas menos preparadas se reflitam para o setor como um global.IBPS:
Quais os procedimentos que uma indústria de celulose deve tomar para entrar em conformidade com a legislação ambiental?CF:
Em geral, através de três tipos de procedimentos:- Investimentos em sistemas de controle e tratamento da poluição
- Implantação de sistemas de gerenciamento ambiental. Uma apreciável parte da produção global do setor de papel e celulose no Brasil é feita por empresas certificadas pela norma IS0 14001 e pelo selo florestal do FSC.
- Incentivar a adoção de técnicas de produção mais limpa e de ecoeficiência, que de uma forma simplificada significa produzir mais com a utilização de menos recursos naturais, ou seja, com menor impacto ambiental, em todas suas formas de expressão.
IBPS:
O que pode ser feito em termos de Produção mais Limpa para diminuir os impactos da indústria de celulose?CF:
- Contínuos investimentos em desenvolvimento de pesquisas para tecnologias e produção mais limpas.
- Contínuos trabalhos de conscientização e sensibilização ambiental, em todos os níveis de colaboradores, terceirizados, acionistas e proprietários das empresas.
IBPS:
As reconversões para uma produção ambientalmente mais compatível são economicamente viáveis para estas indústrias?CF:
A mencionada reconversão é uma prática continuada na indústria, pois ela está sempre se modernizando em suas tecnologias e equipamentos. Há uma íntima correlação entre ser mais eficiente operacionalmente e poluir e degradar menos. A indústria para manter sua competitividade precisa se modernizar e aperfeiçoar. Isso é imperativo. As tecnologias mais recentes, ao serem melhoradas para a produtividade de insumos, de energia, etc., ao mesmo tempo são mais ecoeficientes, gerando menos resíduos e desperdícios, consumindo menos recursos naturais. Portanto, as empresas melhoram sua economia e performance financeira ao se modernizarem, e ao mesmo tempo poluem e impactam menos. A legislação ambiental cada vez mais restritiva é outro acelerador importante para que as mudanças se efetivem.Há no momento algumas empresas investindo fortemente em termos de programas de produção mais limpa, conseguindo importantes resultados através da motivação de todos em torno da causa ambiental. Aliás, se há uma bandeira que todos carregam em uma empresa com muita motivação é a do meio ambiente. As empresas estão aprendendo a canalizar essas emoções positivas de seus funcionários para os sistemas de gestão ambiental. Significa então: empresas melhores, colaboradores mais motivados e meio ambiente protegido. Nada mais que os três pilares do desenvolvimento sustentável.
Celso Foelkel é presidente da ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel e mestre em Ciências ( Celulose e Papel ) pela State University of New York e Syracuse University , USA. Com 35 anos de experiência nas mais diversas áreas do setor de celulose, C. Foelkel atua ou atuou em mais de 30 associações de classe, na maioria delas com posição diretiva. Trabalhou 4 anos na Cenibra e 19 anos na Riocell, onde ocupou posições executivas de gerência e diretoria. Possui mais de 200 trabalhos publicados e mais de 500 eventos e cursos participados, na maioria como palestrante ou expositor. Para maiores informações com o entrevistado acesse
www.celso-foelkel.com.br ou escreva para foelkel@via-rs.netProdução - Comunicação IBPS
